Arroio do Meio – O dia 1º de abril será um novo começo na vida universitária de Joel Berwanger, 18. Há um ano, o momento era de euforia: entrou no curso de Agronomia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Agora, o recomeço é por não saber como agir dois meses depois de uma das maiores tragédias que comoveu o país.
Berwanger retornará à cidade em que perdeu diversos amigos no incêndio da Boate Kiss, que vitimou 241 pessoas no dia 27 de janeiro, a maioria da universidade. O jovem não sabe como agirá quando pôr, pela primeira vez depois da tragédia, os pés no campus da UFSM.
Aos psicólogos que o atenderam durante os 55 dias de recuperação no Hospital de Caridade, de Santa Maria, o universitário confirmava que estava tranquilo. “Mas, sempre dizia (a eles) que o problema era quando voltar a rotina”, resigna-se.
Para Berwanger, o principal desafio será no momento de realizar os trabalhos em conjunto com os colegas. Pelo menos dez amigos morreram na tragédia.
Enquanto aguarda para retornar a Santa Maria, Berwanger está na casa dos pais, no distrito de Forqueta, onde descansa e faz os curativos para a pele. Ele recebeu enxerto de pele e espera a regeneração. “Agora é o tempo que dirá. Não sei quanto tempo vai demorar (a recuperação), porque depende do organismo de cada um.”
O universitário sofreu queimaduras nos braços e nas costas. Ficou no hospital para que o organismo repelisse as toxinas inspiradas durante o incêndio.
Comoção
Por onde passa, é comum para Berwanger ouvir que ficou famoso. “Ninguém quer ser famoso por causa disso”, incomoda-se. Entretanto, se sensibiliza com os desejos de melhoras que recebe de vizinhos e até de pessoas desconhecidas. “O pessoal ficou comovido, eu acho, não por mim, mas por toda a situação. Por tudo o que aconteceu.”
As manifestações ultrapassam os 205 quilômetros que distanciam Arroio do Meio de Santa Maria. Ainda no hospital, recebeu o carinho de enfermeiros, médicos e funcionários.
Primeira festa na boate
Foi a primeira vez que Berwanger entrou na Kiss. Completou 18 anos em outubro e, só com a maioridade, conseguiu ter acesso ao estabelecimento. Foi com um grupo de amigos e ficou na área VIP, onde não era apertado. Porém, confirma o que outras 150 pessoas disseram aos policiais civis durante o inquérito: o local estava muito cheio.
Berwanger só percebeu que havia algo de errado quando saiu do banheiro. As pessoas corriam para a porta de saída e um amigo o informou sobre o incêndio. A área em que estava era longe da porta, mas conseguiu sair a tempo. Ao cruzar a porta do estabelecimento, desmaiou logo depois e foi encaminhado ao hospital.
Assim como a maioria – para não dizer todos – dos que vão em festas, a preocupação com o espaço e com questões de segurança passou despercebida pelo universitário. “Vi que o local era pequeno e apertado, mas não cheguei a reparar nisso tudo.” Logo, completa: “Na verdade, antes disso (de alguma ocorrência grave), tu nunca vais pensar que acontecerá algo.”
“Eles assumiram o risco”
Berwanger voltava para a casa quando a Polícia Civil anunciou os resultados do inquérito. A corporação gaúcha culpou 28 pessoas pela tragédia, sendo que 16 foram indiciadas criminalmente. O inquérito tem mais de 13 mil páginas.
Entre os que podem responder por homicídio doloso qualificado estão Luciano Bonilha Leão e Mar-celo de Jesus dos Santos, da banda Gurizada Fandangueira – que acenderam o sinalizador na boate – e os proprietários da Kiss, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr. A mãe e a irmã de Spohr, sócias da casa, um gerente e dois bombeiros também foram incluídos.
“Ninguém quer matar, mas, como os donos da boate a fizeram desse jeito (com material altamente inflamável e sem estrutura de segurança), assumiram o risco de matar.” Berwanger acrescenta a responsabilidade aos integrantes da banda, pelo uso do artefato, e os bombeiros da cidade, que con-cederam o alvará.
Devido ao inquérito, o governador Tarso Genro afastou o co¬mandante do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, Moisés Fuchs. O prefeito Cézar Schirmer, que foi responsabilizado indiretamente pela tragédia, classificou a investigação como perseguição política. Os advogados dos proprietários da boate criticaram o procedimento e a defesa da banda esperará pela manifestação do Ministério Público (MP).
O MP é quem decidirá se levará os indiciados a júri. Entretanto, não há uma data definida para o provável julgamento.

