Arroio do Meio – A microcefalia, uma doença que causa malformação cerebral em bebês, vem assustando o Brasil, especialmente as regiões Norte e Nordeste, onde está a maioria dos casos. O principal causador do surto que o Brasil presencia é o Zika Vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. Contudo, a microcefalia não é uma enfermidade nova e pode ser causada por outros agentes além do Zika Vírus, conforme explica a médica ginecologista e obstetra, Thaís Nader, que atende na rede básica municipal de Arroio do Meio. Por isso, o acompanhamento pré-natal das gestantes é fundamental na prevenção desta e outras enfermidades que podem acometer mães e bebês.
AT- O que é microcefalia e em que estágio da gravidez pode ser detectada?
Dra. Thaís Nader – A microcefalia é uma malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada e por isso o perímetro cefálico (medida usada para medir o tamanho da cabeça do bebê) fica menor do que o normal. Além de trazer risco de óbito, pode deixar sequelas graves para os bebês que sobrevivem. Em média, 90% estão relacionadas a retardo mental, porém o tipo e a gravidade das sequelas vão depender de caso a caso.
Pela primeira vez na história, com base no surto que vem ocorrendo no Brasil, está sendo descrita a microcefalia relacionada ao vírus Zika. Essa relação está sendo cuidadosamente estudada por especialistas, mas ainda não há dados suficientes para maiores conclusões. O mecanismo mais provável é que o vírus cause uma encefalite, levando à destruição do tecido encefálico, redução do tamanho do cérebro e, consequentemente, redução da medida da cabeça do bebê (microcefalia). O grau da lesão e o comprometimento do cérebro vão depender do momento em que a mãe foi infectada. Já se sabe que o maior risco de desenvolver a malformação ocorre quando a gestante contrai o vírus no primeiro trimestre da gestação, que é o período embrionário (de formação), porém durante toda a gestação o sistema nervoso central permanece suscetível a complicações decorrente da infecção pelo vírus.
A microcefalia pode ser detectada precocemente no pré-natal, a partir do segundo trimestre de gestação, quando se começa a medir a circunferência cefálica através da ecografia obstétrica simples. Além disso, conforme a correlação clínica, se a gestante apresentar sinais e sintomas suspeitos de infecção pelo Zika Vírus (principalmente exantemas que são manchas avermelhadas na pele), o caso deverá ser notificado e testes específicos serão realizados. Em áreas endêmicas, como Norte e Nordeste, já existem protocolos de atendimento especializado para gestantes com suspeita ou diagnóstico de Zika Vírus.
Em todo o Brasil, até o atual momento foram notificados 3.381 casos de microcefalia que estão sendo investigados, afetando 21 estados e 724 municípios. Cerca de 90% dos casos encontram-se no Nordeste. Aqui no Rio Grande do Sul há apenas um caso suspeito em investigação.
AT – Até antes do Zika Vírus pouco se ouvia falar de microcefalia. Há cuidados que as grávidas podem tomar no sentido de prevenir a doença?
Thaís – Certamente. A microcefalia é um evento raro e antes do atual surto causado pelo Zika Vírus no Brasil, era uma doença pouco questionada pelas pacientes. Até o momento, ainda não se tem total conhecimento e certeza sobre os mecanismos do vírus. Porém, além do Zika, diversas outras causas de microcefalia são antigas conhecidas, como por exemplo, exposição a outros tipos de vírus (Ex: Toxoplasmose, Citomegalovirus, Sifilis, HIV), bactérias, radiação, uso de substâncias químicas, tóxicas, álcool, Diabete mal controlada e outros fatores. Além dessas causas, existe também a origem familiar (genética) que representa 10% das microcefalias.
Quando é detectado, por meio de ultrassonografia, que o tamanho da cabeça está menor do que o esperado para a idade gestacional se inicia uma série de exames complementares para investigação das causas, danos e possíveis tratamentos. Portanto, fazer um acompanhamento de pré-natal adequado é a melhor forma de prevenir a microcefalia, pois possíveis fatores causadores da anomalia podem ser detectados e tratados precocemente.
Em relação aos cuidados contra o Zika Vírus, as gestantes devem ter atenção redobrada para se manterem longe do mosquito Aedes aegypti (transmissor do vírus). Devem procurar usar roupas que cubram os braços e pernas, aplicar repelentes adequadamente, evitar lugares e horários onde há maior concentração de mosquitos e jamais viajar para locais endêmicos sem consultar seu médico.
Os produtos repelentes mais comumente encontrados contêm como princípios ativos o DEET, Icaridina e IR3535 e podem ser utilizados por gestantes. Conforme a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), todos os produtos repelentes de uso tópico podem ser utilizados por gestantes, desde que estejam devidamente registrados na Anvisa e que sejam seguidas as instruções de uso contidas no rótulo. É importante observar as instruções de quanto em quanto tempo deve ser reaplicado cada repelente. Também existem as opções naturais, como a Citronela e a Andiroba, que não têm contraindicações, mas não possuem eficácia comprovada contra o Aedes aegypti.
Além disso, vale ressaltar a importância dos esforços das equipes de saúde e de cada um, como cidadão consciente, na luta em comum para tentar eliminar os focos do mosquito Aedes aegypti. É muito importante que todos cuidem para que não acumulem água parada em seus pátios, conversem com vizinhos e procurem colaborar com as campanhas. Enquanto a ciência procura a cura, o tratamento ou uma vacina para o vírus, cada um deve fazer a sua parte. Sem o mosquito não há transmissão do vírus.
AT – Diante desta epidemia do Zika, qual a recomendação para uma mulher que planeja engravidar? É melhor postergar a gestação?
Thaís – Grávidas e mulheres que planejam engravidar talvez sejam o grupo mais alarmado pelo aumento de infectados pelo Zika Vírus. O Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS) já confirmaram que a infecção causada por este microrganismo está mesmo relacionada aos casos de microcefalia. O problema é que ainda se sabe muito pouco sobre como combater essa epidemia, que está tendo consequências gravíssimas.
Sendo assim, o melhor a ser feito é orientar as pacientes sobre os riscos da doença e, principalmente, sobre a prevenção contra o mosquito transmissor do vírus. Segundo o Ministério da Saúde, a decisão de engravidar ou não deve ser tomada pela paciente, de forma consciente e informada. Porém, é de extrema prudência, que as mulheres que moram em áreas endêmicas posterguem os planos de engravidar nesse momento.
AT – Qual a importância do acompanhamento pré-natal para a descoberta precoce da microcefalia e outras doenças que podem afetar o bebê durante a gestação?
Thaís – A importância do acompanhamento pré-natal é indiscutível, seja ele de baixo, médio ou alto risco. A gestante deve ser acompanhada por um médico desde o início da concepção e, se possível, antes dela. Em geral, a gestação leva em torno de 40 semanas e é um período muito delicado na vida da mulher. Esse percurso merece todo o cuidado e exige muita responsabilidade.
Durante o pré-natal são realizadas consultas médicas periódicas, esclarecimento de dúvidas e orientações, exames físicos de rotina, exames laboratoriais e ecografias seriadas. Tudo isso tem como objetivo a prevenção e diagnósticos precoces de doenças ou alterações que possam surgir durante a gestação. É importante que a gestante sempre relate ao seu médico todo e qualquer sintoma diferente do usual, colaborando mais uma vez para a suspeita, investigação de problemas gestacionais.
Portanto, um pré-natal adequado poderá diagnosticar precocemente doenças que têm tratamento e que se não forem descobertas e tratadas rapidamente podem causar malformações no bebê. Por isso, seguir todas as orientações médicas e tratamentos prescritos é a melhor maneira de prevenir qualquer tipo de patologia.


