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    Ivete Kist - Carta Branca

    Páscoa

    daianeBy daiane6 de abril de 2023Nenhum comentário4 Mins Read
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    Já que o coelhinho demorava a se mexer, fui em busca de uns doces para a Páscoa.

    É preciso adoçar a vida!

                            Mais uma vez e de novo, me dei conta da mudança no cenário onde fazemos compras. Talvez, seja esse o espaço  que mais se transformou.

                            Antigamente, tudo estava disponível ali na venda – que era como se chamavam as lojas que atendiam nossas necessidades. (Aliás, tudo que estava disponível era ridiculamente pouco, se comparado com o que agora está.) Falo do tempo anterior ao shopping, essa invenção destinada a embaralhar conceitos. Os shoppings botaram pra correr a noção de que há coisas necessárias.

                            Na venda, quem atendia era em geral o dono. A gente entrava e cumprimentava. Ficava aguardando  autorização para desfiar a lista vinda de casa. Solicitava um item e esperava vê-lo depositado no balcão, para dar prosseguimento à compra. Compravam-se as coisas necessárias: erva-mate,  farinha, fósforos, sal…  Quem precisava de biscoito em creme de avelãs? Quem precisava de coca light? Quem precisava de limpa-vidros com perfume de jasmim? Se fosse antes da Páscoa, a gente incluiria algo para contornar a abstinência de carne, que era de preceito guardar na sexta-feira santa, e ia acrescentar uns docinhos para as crianças. Pronto!

                            De qualquer forma, para a Páscoa, a oferta na venda era modesta. Ovos de açúcar, com  decoração bonita, mas nem tão cobiçados como seria de esperar (tinham gosto de açúcar e,   se fosse para comer açúcar, a gente iria  no açucareiro, ora). Uns chocolates embrulhados em papel dourado, balas de goma e caramelos em geral. Pronto!

    ***

                            Não estou falando do passado, para fazer o elogio dos velhos tempos. Minhas saudades são pequenas. O passado que eu vivi era mais duro, mais cheio de formalidades e mais avaro. Acho que os costumes obedeciam a um planejamento muito estático. Os costumes eram mantidos no ferrolho. Acontecia de o ritual ser mais valorizado do que o próprio conteúdo.

                            Hoje, o imbróglio é outro.

                            Hoje, há coisas demais, distrações demais. O perigo é submergir entre os pacotes ou no glamour do mundo virtual e, novamente, perder o conteúdo.

                            O que anima  hoje é que  agora há mais liberdade de escolher. Tolera-se melhor quem resolver mudar seu rumo. É possível se lixar que gostem ou não gostem do nossa opção. É possível dispensar coisas e costumes, fugir das embalagens, dos agitos, dos  barulhos. Ficar só com o silêncio, na  partilha da  alegria.

                            Mesmo se não parece, dá para dispensar essa coisarada toda e grudar-se no miolo.

                            Não fazer nada de importante. Apenas ser e estar.

    (Apenas?)

    daiane

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