
Calorão! E eu, como todo ano, nessa época, sofro abaixo do sol, não suporto o mormaço das sombras e somente me confortam os mergulhos na piscina, chuveirada ou ler um bom livro de crônicas sob o conforto do ar-condicionado. Viva Will Carrier, o inventor dessa máquina de resfriar ambientes. É um tempo onde meu humor passa a ser testado com muita frequência. E como todos afirmam, sou um tipo calmo. Às vezes demais. Mas tudo tem limite.
Na semana passada, eu estava na sala de espera de um consultório médico. De repente entra uma senhora, muito bem vestida e suando, é claro. Senta por alguns minutos e, repentinamente, salta até a mesa da recepcionista. Pede para que desligue ou reduza a temperatura do ar-condicionado. Passou a sentir frio! A moça olhou para os demais que aguardavam. Concordamos na redução. Dois minutos após, a friorenta voltou a se queixar. E nós, demais viventes da sala discordamos. Estava ótimo.
Ela insistiu, sem contato visual conosco, é claro. A secretária buscou nossa aprovação que, obviamente, foi negada. Não estava gelado o ambiente, ora. A moça, vendo que havia perdido a batalha, voltou à cadeira vociferando que iria contrair uma pneumonia. Foi aí que outra paciente levantou, bem séria e, de olho na guria, disse em tom ameaçador: “quem sabe você não anda com uma blusa feito eu?” E deu início a uma leve, mas ameaçadora discussão.
Foi aí que eu, com meu melhor ar pacificador sugeri: “moça sente na minha cadeira, lá o ar não chega com tanta força”, ela quase me contestou mas, diante do olhar pouco amistoso do entorno, concordou. E ainda comentei, em meia voz, para a outra paciente: “serenidade é minha estratégia de economia de energia, com esse calor, situações estressantes podem derreter a racionalidade”. Ela me ouviu concordando e riu quando eu cochichei “na verdade eu queria estrangular aquela chata, mas isso não combina em consultórios médicos”. Ambos rimos.
Encerrada a consulta, relatei o ocorrido a um vizinho que me apelidou, a partir daí, de “psicólogo instintivo”. Refutei pois na verdade eu apenas possuo um temperamento fleumático, tranquilo e com uma boa regulação emocional. Com isso, evito o desgaste de explicações desnecessárias, feitas na impulsividade. É verão e a cabeça, naturalmente, está quente. A pressão sobe, o juízo derrete e a confusão está feita. No meu caso, sigo a recomendação do beatle John Lennon e sempre dou uma chance à paz!

