
Quem fez votos, vestiu cores, acendeu velas, deu três pulinhos desafiando a artrose ou brindou com espumantes de todas as nacionalidades, de todas as promoções nas gôndolas dos supermercados, bem que merecia uma guinada positiva nesse 2026. Mas, pelo jeito, continuaremos a ver os mesmos filmes existenciais, com novos atores em velhos papéis. O “eu te amo” solto, perdido entre pequenas crises, distanciamentos provocados pela intolerância, mãe de todos os confrontos atuais. Mesmo assim, a virada de ano, para mim, foi importante pela consciência de que continuarei em remissão de enganos passados, mas decidido a não cair na vala comum da autoindulgência.
Na minha idade, aprendi a focar no que é menos nocivo ao espírito e avalio um pouco melhor, o que devo consumir para manter o corpo em pé. Quero garantir os cafés com amigos, as confrarias de bons pratos e visitar mais os familiares. Se tivermos pautas polêmicas, as transformarei em resiliente pacificação. Estou velho para construir novos muros e muito novo para me entregar a um isolamento social. Conviver é uma palavra que diz tudo. Tem uma etimologia de fácil explicação – “viver junto” – e apesar de tamanha singeleza pode adquirir dimensões extremamente amplas.
Vou expandir esses portais, apesar dos conflitos entre nações, ou aqui mesmo em meu bairro. Sempre abrirei a porta para o entendimento. Que venha negociado, pode ter longas sessões discutidas com ênfase mas sempre, um singelo toque racional será bem-vindo. Tenho amigos que se aposentaram e passaram a curtir mais seus hobbies. Deixaram os dias de trabalho em sua gaveta especial, trocando o estresse cotidiano pela saudade – sentimento gostoso que carrega a essência dos bons momentos construídos.
Não é pouco, afinal, cada um sabe do fardo que acompanha o cotidiano.
Até o final do mês, deverei ter consumido todos os panetones que ganhei. Perfeitos com um café preto, ou chá, quem sabe. Importante é que não me dobrarei a uma rotina insossa, de autoindulgência, nem tampouco me posicionarei feito um revolucionário de causas perdidas. O que ficou para trás, por dano ou indiferença, que siga sem passo retrógrado. Eu estarei à frente, com ou sem dor. Sem buscar um ilusório reconhecimento. Os louros, usarei no tempero de pratos caseiros. Hum! Sempre haverá uma nova receita em antigos livros. E assim, salvarei meus dias futuros. Estão servidos?

