Aos 27 anos, Renan Pedro Becker, natural de Travesseiro e oriundo da comunidade de Picada Felipe Essig, vem se destacando por sua trajetória acadêmica inspiradora. Atualmente, o jovem realiza doutorado em Ciência do Solo na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, uma das instituições mais respeitadas na área. A experiência internacional representa não apenas um avanço profissional, mas também a realização de um sonho construído com dedicação e esforço. Renan permanecerá no país até 2030, aprofundando seus estudos e pesquisas.
Enquanto isso, deixa em Travesseiro o pai, Alexandre Pedro Becker, a mãe, Márcia Regina Becker, e a irmã, Bianca Amélia Becker. Além da família, ficam também amigos e ex-colegas que acompanham com orgulho cada conquista do jovem pesquisador.
Confira abaixo a entrevista que o jovem concedeu ao jornal O Alto Taquari diretamente de solo americano.
O Alto Taquari – Atualmente faz qual curso nos EUA?
Renan Becker – Estou realizando meu doutorado em Ciência do Solo na Universidade da Flórida. Em dezembro do ano passado terminei meu mestrado em agronomia também na Universidade da Flórida. Sou formado em agronomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, curso que completei em 2023.
AT – Por que escolheu os Estados Unidos da América para sua formação?
Becker – Eu tinha um objetivo pessoal de aprender o idioma inglês até o final da minha graduação em agronomia. Durante meu curso tive contato com diversos pesquisadores da área de forragicultura devido ao meu envolvimento no grupo de pesquisa em ecologia do pastejo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, liderado pelo professor Paulo Carvalho. Motivado pelo ambiente do grupo de pesquisa, entrei em contato com Marcelo Wallau, professor da Universidade da Flórida que havia realizado seu doutorado com o professor Paulo. Esse contato me oportunizou a realização de um estágio com duração de seis meses no ano de 2022. Essa experiência foi fundamental para meu aprimoramento no idioma inglês e com isso havia alcançado meu objetivo de aprender o idioma antes do final da minha graduação. Durante meu estágio fui convidado pelo mesmo professor da universidade da Flórida (Marcelo) a dar continuidade nos meus estudos em um programa de pós-graduação como estudante de mestrado. A decisão se deu de modo muito natural devido à oportunidade de obter um diploma em uma universidade de grande renome internacional, e que possui grande influência na produção de conhecimento científico na área agronômica, especialmente em forragicultura, área na qual estive focado no meu mestrado e em grande parte da minha graduação.
AT – Como está sendo sua rotina em um país de primeiro mundo?
Becker – Creio que a grande diferença se dá em relação a diferenças culturais e ao convívio comunitário. Vim para cá pela primeira vez sem conhecer ninguém e sem nunca ter viajado para outro país. Leva um tempo até se adaptar e especialmente para criar vínculos com as pessoas. Um ponto positivo que ajuda a amenizar é o fato de estar em uma cidade onde grande parte das pessoas também são estudantes que passam pelo mesmo processo, situação que facilita muito no convívio e formação de amizades. A universidade aqui também possibilita diversas atividades artísticas e tem uma infraestrutura fantástica no quesito de salas de aula, laboratórios e locais para prática de esportes. O local onde moro é um apartamento alugado que divido com outros estudantes. Minha rotina se baseia basicamente em assistir aulas, trabalhar desenvolvendo pesquisas que fazem parte do meu doutorado e atividades de lazer relacionadas a esportes e atividades culturais. Meus estudos aqui são pagos por bolsa de projetos de pesquisa e recebo salário como assistente de pesquisa.
AT – Tem sentido dificuldades por lá?
Becker – Primeiramente foi a questão de me comunicar em outro idioma que não o português. Dificuldade essa que já superei logo no meu estágio aqui em 2022. A principal dificuldade que enfrento agora é emocional, sou uma pessoa de gostos simples e apegado à família, embora consiga me adaptar bem a diversos ambientes, sinto saudades de estar em minha casa em Picada Felipe Essig onde vive minha família, minhas cadelas Flechilha e Maia e minha égua Zaina, esse é o meu lugar preferido.
AT – Quais as diferenças que mais marcam o agronegócio americano e o brasileiro?
Becker – Existem. Aqui a assistência técnica está fortemente representada pelas universidades. Cada estado americano tem pelo menos uma “land-grant university”, que é uma universidade responsável por realizar ensino, pesquisa e extensão. Por exemplo, a Universidade da Flórida se encaixa nessa categoria e possui diversos escritórios e extensionistas espalhados pelo estado para trabalhar nas mais diversas áreas, tanto agropecuárias quanto em regiões mais urbanizadas. Também creio que aqui os produtores tendem a organizar-se mais em grupos, de forma que conseguem obter melhor comunicação com órgãos governamentais e empresas, conseguindo expor suas demandas e necessidades mais efetivamente.
AT – Cite algumas boas experiências que teve por lá?
Becker – Foram diversas experiências, mas sem dúvida a participação em conferências de pesquisa foram muito marcantes. Anualmente participo de uma conferência realizada pelas sociedades americanas de agronomia, ciência do solo e produção vegetal. Em 2024 estive em San Antonio, no Texas, e no ano passado em Salt Lake City, em Utah, em ambas as conferências eu estive apresentando trabalhos de pesquisa que realizei durante o mestrado. Foram experiências muito enriquecedoras tanto profissionalmente quanto pessoalmente. Conheci muitos professores, estudantes e representantes de empresas do setor, assim como também tive a oportunidade de conhecer um pouco as paisagens próximas de cada lugar. Próximo de Salt Lake City, por exemplo, tive a oportunidade de ver bisões, um momento que eu sempre quis viver.
AT – O que mais sente falta do Sul, em especial de Travesseiro?
Becker – Sinto muita falta de jogar futebol de salão semanalmente com meus amigos na comunidade de Picada Felipe Essig. Além disso, sempre gostei de andar de bicicleta e participar de cavalgadas pelo interior. Algumas dessas atividades consigo realizar por aqui, como andar de bicicleta, por exemplo, mas fazer isso em meu lugar de origem tem um apego cultural diferente. Outro ponto é o contato próximo com meus avós. Aprecio muito o fato de conseguir me comunicar com eles sobre a vida de antigamente, costumes, práticas e como o passado moldou nosso presente. Inclusive, grande parte da minha comunicação com minha família se dá no idioma alemão, o qual eu faço questão de conservar tal costume, que carrega um valor identitário enorme e foi ferrame=nta fundamental para minha adaptação no idioma inglês dada à similaridade entre os dois idiomas. Esse inclusive é um ponto que acredito que deveria ser cultivado com mais força em regiões como o Vale do Taquari, visto que diversas pessoas falam (ou falavam) outro idioma, especialmente alemão e italiano. Essa possibilidade de ser bilíngue é um privilégio que, em alguns casos, temos à disposição no nosso convívio familiar e que me representa facilidades adaptativas atualmente.
AT – Tem projetos futuros? Conte mais sobre…
Becker – Para o futuro pretendo utilizar a minha experiência na área agronômica especialmente no setor privado, visto que agora também tenho a fluência no idioma inglês como adicional e consigo me comunicar também em espanhol. Creio que, com algum direcionamento, eu consiga boa inserção no mercado de trabalho como engenheiro agrônomo. Porém eu também aprendi que muitas oportunidades surgem inesperadamente e resta a nós estarmos preparados para aproveitá-las. Eu não imaginava que algum dia realizaria meu mestrado aqui na Universidade da Florida, hoje não somente realizei o meu mestrado quanto me foi oferecida uma oportunidade de continuar aqui realizando um doutorado.
AT – Por fim, qual a mensagem que deixa aos travesseirenses, sobretudo aos amigos e familiares que deixou por aqui?
Becker – Planejamento, persistência e determinação. Antes de classificar uma conquista como inalcançável, devemos identificá-la como um objetivo. Somente a partir desse ponto conseguiremos saber quais decisões e ações podem ser tomadas. Eu quis me formar em agronomia e aprender inglês, a partir daquele momento me planejei e comecei a me esforçar para atingir tal objetivo. Logicamente que isso acarretou que eu estivesse longe da minha família e exigiu bastante esforço meu e da minha família. Tenho muito orgulho das minhas origens tanto no quesito Travesseiro quanto ao Vale do Taquari. Falar em persistência e determinação é inclusive redundante para uma região que recém passou pela maior enchente da sua história e que infelizmente tem experienciado cheias com certa frequência. Mesmo dada a situação, fomos capazes de seguir adiante com nossas atividades e compromissos graças ao suor do nosso trabalho.
Agora me dirigindo aos produtores rurais, além de enfrentar enchentes, estamos vivenciando estiagens, oscilação de preços pagos, custos de produção crescentes e baixa oferta de mão de obra. Apesar disso, seguimos adiante com empenho e mantendo a região como destaque na produção agropecuária. Falo isso não somente para enaltecer a todos os trabalhadores rurais, mas também torcendo para que tenhamos melhores condições de trabalho e estabilidade financeira. A realidade que vivo hoje se deu em função da minha experiência vivida durante a graduação em agronomia e pelas oportunidades que eu tive durante todo o processo. Mas sem dúvida os valores que trago de casa foram e são fundamentais para isso. Aprendi valores como empenho e determinação trabalhando com meus pais na atividade leiteira, e aplico os mesmos valores atualmente, porém agora voltado a meus estudos e as pesquisas que estou envolvido. Feliz aniversário, Travesseiro!



