Os assuntos que alimentam bate-papos no Brasil mudaram muito. No comando da mudança, a televisão é a responsável principal. Isto mesmo, entre nós, a expansão da comunicação televisiva foi simplesmente arrasadora. Só para avaliar melhor, vale lembrar, que em 1950, quando a televisão foi inaugurada no país, havia 200 aparelhos de TV em território nacional – todos contrabandeados, diga-se de passagem. Quarenta anos depois, em 1990, o número de televisores atingira o patamar de 30 milhões. Nessa altura, a proporção era de um aparelho para cada cinco pessoas, mais ou menos. De outra parte, uma década antes, em 1980, cerca de 37% das casas no Brasil tinham uma geladeira, enquanto que 73% tinham um televisor. O mais importante nisso tudo é que durante esse período, junto com os aparelhos de TV, todos os tipos de matéria foram entrando nas rodas de conversa.
Aconteceu que a televisão, em geral, e as telenovelas, em particular, foram progressivamente rompendo a barreira dos temas. Como em geral os aparelhos ficam ligados para a família inteira, os assuntos se democratizaram. É por isso que no espaço de uma geração ocorreu uma revolução e tanto. Hoje em dia, todos têm condições de participar de todos os debates e o fazem. Se considerarmos que as mulheres, as crianças e os analfabetos eram os que tinham menos ítens sobre os quais podiam pensar e conversar, fica possível concluir que a TV cooperou com a promoção social. E ganhou mais quem estava em situação pior.
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Mas a vida não para.
Pesquisa do IBGE mostra que, no final de 2023, o número de domicílios com TV no Brasil chegava a quase 95%. A chamada TV aberta continua dominando o cenário, enquanto que novidades ganham terreno. Transformações estão em curso. A TV aberta vai perdendo espaço diante da chegada das chamadas Smart TVs, essas que permitem acesso a sites e canais, para assistir programas na hora que convém. Em parte, a forma mais tradicional de assistir TV resiste devido ao custo que essas novidades tem. Todas as maravilhas tem de ser pagas, claro.
Seja como for, a tecnologia disponível dá acesso a controles antes desconhecidos. Agora, podemos não só escolher o programa e o assunto que nos interessa, mas pausar a exibição, passar adiante ou recuar. A TV virou uma espécie de serviçal nossa. A gente manda e ela obedece.
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Não consigo nem imaginar qual será a próxima inovação. Também não sei se nós, como pessoas, estamos nos aperfeiçoando no mesmo ritmo em que os aparelhos estão. Só sei que, ao me flagrar escolhendo assistir o que eu quero na hora que eu quero, sou tentada a entoar com Elis Regina aquela canção de Belchior, “Velha roupa colorida”, que diz coisas assim:
“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

