A tecnologia apresenta novidades todos os dias. O mais simples gesto do cotidiano tem, já há algum tempo, nuances de modernidade. Há dispositivos que pelo simples comando de voz são capazes de fazer quase tudo dentro de casa.
Há muito tempo desisti de acompanhar os avanços. A multiplicidade de novos hábitos é pautada pelas novidades que cientistas concebem, na maioria das vezes, “criando necessidades”. Graças a esta prática, todos os dias, compramos e consumimos objetos, alimentos e serviços que nem sempre necessitamos. São ilusões, modismos que, ali adiante, serão ignorados e substituídos. Apesar da inteligência artificial do momento, a proliferação destas engenhocas é incapaz de transformar pessoas em seres verdadeiramente humanos. “Esta tragédia de maio de 2024 revelou o que o ser humano tem de melhor e de pior”, afirmou o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, em uma de suas primeiras entrevistas coletivas, concedidas logo no início da tragédia das enchentes.
Na ocasião, ele se referia aos saques que proliferaram não só em Porto Alegre e Região Metropolitana, mas em todo o Rio Grande do Sul. Isso obrigou os empresários que perderam tudo a gastar o que não tinham para contratar segurança privada. A Brigada Militar e a Polícia Civil, apesar dos incansáveis esforços, não contavam com contingente e veículos – barcos, jet-skys e botes – suficientes para coibir os crimes cometidos contra o patrimônio dos flagelados.
Princípios e valores são ensinados dentro
de casa. E praticados ao longo de toda vida
Como esperado, mais de um mês do flagelo, proliferam denúncias de desvios, golpes e abusos perpetrados especialmente contra pessoas de boa fé. É gente que, diante da televisão ou acessando a tela do celular, assistiu estarrecida reportagens sem fim sobre a legião de gaúchos desalojados pela fúria das águas.
Entre os vigaristas, comerciantes inescrupulosos aproveitaram a “lei da oferta e procura” para majorar preços de artigos de necessidade extrema naquele momento de crise. Cestas básicas foram oferecidas a valores exorbitantes. Botas, luvas, material de limpeza e aparelhos de lava-jato alcançaram custo inimaginável devido à necessidade.
Não existe polícia ou autoridade fiscalizatória capaz de barrar a ganância e o mau-caratismo que aflora, inclusive, em momento de extrema tragédia. Na eclosão da enchente, quando todos os noticiários tinham o Rio Grande do Sul no centro dos acontecimentos, era inimaginável supor que golpes seriam aplicados usando a boa-fé de todo país para conseguir dinheiro fácil.
Princípios e valores não têm hora, dia ou situação. São ensinados dentro de casa e praticados ao longo da vida.

