
Aproveitando que está chegando a época de férias, praia, pé na areia, recordo hoje uma crônica que redigi em 2015 e que está no meu desativado blog http://gilbertojasper.blogspot.com/
Não lembro que idade eu tinha – cinco ou seis anos – mas a experiência foi traumática, inesquecível. Com a minha irmã – dois anos mais velha – me perdi na praia ao sair do mar. Era uma manhã de domingo, de areia lotada e muito calor, em Tramandaí que, naquela época – década de 60 – era o xodó dos gaúchos durante o veraneio, a chamada Capital das Praias.
Saímos da água e por algum motivo meus pais não estavam nos esperando, o que sempre acontecia. O desespero tomou conta da dupla que viera do interior para curtir o verão. Saímos a caminhar como duas baratas tontas em busca de algum rosto conhecido para nos socorrer, sem sucesso.
Caminhamos em círculos, de mãos dadas, por muito tempo.
Não sabíamos o que era maior: o medo ou a sede causada pelo sol a pleno. Cansados, sem qualquer esperança de encontrar a família, ficamos congelados à beira do mar. Só tínhamos forças para chorar.
De repente, não sei de onde, surgiu um senhor grisalho, de boné, com 70 e poucos anos que se agachou para conversar.
– O que aconteceu com vocês? Estão perdidos? – indagou com voz mansa depois de oferecer um refrigerante gelado.
Entre soluços contei nosso drama e ele passou a fazer uma série de perguntas.
– Vocês tinham guarda-sol? Que cor era? Tinha um bar por perto? Vocês estão numa casa ou num apartamento? – e assim por diante.
A partir de algumas informações ele nos levou para as proximidades do antigo Restaurante Panorâmico, ponto de atração pela arquitetura arredondada, novidade para aquela época.
A “rádio-poste do seu Dario” em Tramandaí
fez história para muitos da minha geração
Nosso protetor foi conversar com outro homem, também de idade avançada, chapéu de palha e, poucos minutos depois, ouvimos nossos nomes reverberando na “rádio-poste”.
Era um modesto sistema de som comandado pelo lendário Dario Krás Borges. Consistia numa casinha de madeira com mesa, toca-discos e microfone que irradiava o som a partir de alto-falantes instalados nos postes ao longo da praia.
Em menos de 15 minutos vi meu pai surgir no meio da multidão, seguido pela minha mãe, com os olhos inchados de tanto chorar, e meus avós. Finalmente encontramos rostos familiares que devolveram a tranquilidade do veraneio, não sem antes recebermos uma advertência pela distração à beira mar.
A “rádio-poste do seu Dario” – como entrou para a história de Tramandaí o moderno veículo de comunicação de então – salvou mais uma dupla de crianças perdidas.
Por décadas o bronzeado teve como trilha sonora os sucessos musicais da época – rodadas num surrado tocadiscos velho -, mesclados por oferta de fotógrafos amadores, oferta de aluguel de casas e quartos e até anúncio de dentaduras encontradas na areia. Além, é claro de crianças distraídas perdidas ao longo da praia.

