
O tempo avança e a minha turma, essa que já atingiu a idade da aposentadoria sofre, queira ou não, algum tipo de ansiedade sobre o futuro. As dores típicas do envelhecimento, o temor por algo pior como alguma demência, obrigam a buscar satisfação em prazos menores. É a chance de viver sabiamente em busca da realização de algum sonho adiado. Sem tensões ou cobranças. Mas aí, surgem importantes fatores externos tipo as enchentes por aqui, ou a seca na Amazônia.
Nós, veteranos, somos mais sensíveis no momento de enfrentar esses frequentes eventos extremos e seus rastros de destruição ambiental. A situação é tão delicada que a comunidade científica brasileira já iniciou estudos voltados ao tema. Um grupo de psicólogos e psiquiatras – do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e da Fiocruz, em Manaus – estudam o que chamam de “ansiedade climática” ou “ecoansiedade”. Não faltava mais nada!
As secas na Amazônia – que fizeram rios desaparecer – e as enchentes que enfrentamos aqui no Sul, deixaram rastros de destruição no ambiente e na vida dos que sobreviveram. Muito além da ansiedade, se revelaram sintomas de estresse pós-traumático e depressão crônica. A pesquisa busca entender o sofrimento mental e como lidar com o pós-trauma entre os idosos porque – cá entre nós -, o sistema de saúde ainda não sabe.
O que já se percebe é um aumento no consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas, afastamento de vida social e repetidas ausências no trabalho. A pesquisa ouvirá as comunidades envolvidas e suas propostas. Dará atenção especial às mulheres, as que mais sofrem nesses momentos. Por aqui, o hospital Moinhos de Vento elabora o projeto Recomeçar, que investiga os efeitos das enchentes na saúde mental dos gaúchos.
Por enquanto, a ansiedade climática ainda não é reconhecida como diagnóstico clínico, mas os seus sintomas são objeto de estudo na elaboração de um protocolo científico que possa ser usado para facilitar o acesso a um tratamento específico. Eu aqui, permaneço na torcida para que a ciência, de alguma forma, amenize os riscos de ser engolido pelas águas. Afinal, minha agenda de vovô ainda tem muitos planos.

