
Obras em casa e eu, aqui no meu canto, entre poeira de cimento e areia, acompanho a conversa dos pedreiros. Eles não falam sobre lances de futebol, mulheres bonitas ou os automóveis. O papo se concentra basicamente em fofocas locais e maledicências gerais. Quem disse que as mulheres são mais atentas a esse tipo de conversa? Por exemplo, descobri que um dos comerciantes aqui do bairro, está endividado e as vendas não correspondem ao esperado. A esposa de um tal “seu” Antônio, ameaçou largar tudo se o dito não terminasse a construção da casa nova. “Vamos torcer para ela ter sorte e aparecer mais trabalho”, foi a ponderação geral entre uma pá de cal e outra.
“E a Lurdinha?”, perguntou o mais jovem da turma. E seguiu um forte debate entre as opções profissionais para as gurias do bairro. Chegaram à conclusão que ela era muito inteligente, administrava com muita eficiência o comércio da família “já que o pai é um preguiçoso”, concluíram. Em seguida, avaliaram os serviços oferecidos no bairro, a falta de higiene de nosso maior supermercado, “eles desligam as geladeiras e freezer na madrugada”. Aí me arrepiei. Seria verdade?
Entre conversas sobre os cuidados para evitar a compra de cimento vencido, tijolos baratos mas que viravam pó com o tempo, combinaram que até o final do ano iriam comemorar a entrega de uma casa na fazenda do maior criador de gado leiteiro da região. “Vou levar a patroa para uma praia no Nordeste. Anota aí!” E riram acusando o chefe de pão duro. “Ela vai se contentar com nosso mar chocolatão”. E a partir daí a risada tomou conta do espaço.
E foi a partir daí que lembrei uma antiga pesquisa que indicava – contrariando o estereótipo popular -, que os homens tendem a ser mais fofoqueiros que as mulheres. Estudos britânicos mostram que passam mais tempo diário – cerca de 76 minutos – falando sobre a vida alheia, especialmente no ambiente de trabalho, muitas vezes consideram essa fofoca de “inocente conversa sem maldade”. Claro, o nefasto sempre estará do outro lado. Ora!
E aí penso sobre meus encontros com amigos quando longe das esposas, namoradas e demais ausentes. Tudo geralmente acaba em piada, ou dependendo do teor alcóolico em sensíveis confissões de amores perdidos, resgatados ou imaginários. “A Lurdinha me abandonou para morar em Londres”, reclama sempre um desses meus parceiros. E cada vez mais, dou a razão a ela. Um chato merece a sina do abandono voluntário.
Mas permanecemos unidos, conselheiros ou ouvintes. Nossos garçons muitas vezes nos servem o chope e alguma filosofia barata. Ora sofredores, ora realizados machos da espécie. E, cá entre nós, dá um certo alívio perceber que não sou o único enredado nas constantes tramas da vida. Por isso, ofereço sempre um brinde às amizades sinceras e aos botecos, alegres templos confessionários.

