Aos 80 anos, dona Terezinha Bianchini Daltoé, moradora da localidade de São Domingos, Capitão, não se assusta com a calmaria do fim de tarde. Os dias tornaram-se mais longos após a partida do esposo Sílvio Daltoé, falecido há cinco anos.
Ficaram as boas memórias, o respeito mútuo e tudo o que construíram ao longo de tantas décadas. Encontravam na simplicidade da casa de interior, a forma de ser feliz. Na casa, mantém viva as memórias de uma vida dedicada ao trabalho na roça, do esforço para sustentar a família e bem receber os parentes e amigos.
Trabalhou de sol a sol para criar os filhos Derli e Adriano. “Eu plantava, colhia, tratava os bichos e ainda cuidava da casa. A dureza da vida na agricultura não assustava, sempre gostei do serviço bem feito”, conta. Dona Terezinha segue vivendo na mesma casa onde nasceu e cresceu. Ali também nasceram os 12 irmãos, filhos de Maria Carolina e Domingos Bianchini.
Perder a mãe aos nove anos de idade, tendo irmãos ainda com cinco, sete anos, não foi nada fácil. A mãe Maria Carolina era jovem, tinha apenas 49 anos. O pai foi um grande homem sim, mas entendia que as crianças precisavam da presença, de um olhar materno. Assim, dois anos depois, Domingos Bianchini, casou-se novamente, com uma figura já familiar a todos, a cunhada Santina Bagatini. A tia tornou-se madrasta e foi uma boa mãe, zelosa e muito rígida na forma de educar, porém cumpriu o seu papel de mãe, afirma Terezinha.
O tempo passou. Terezinha conheceu Sílvio Daltoé e em 1970, no dia em que completava 25 anos, casaram-se. O pai e a esposa já manifestavam a vontade de morar em Bento Gonçalves onde alguns filhos residiam e possuíam uma indústria de óleo vegetal. Bianchini atendeu o convite, organizou a propriedade e mudou-se para Bento Gonçalves.
Ao lado do agora esposo, Terezinha continuou escrevendo sua história e cuidando da plantação de “tungue” do pai. De resto, todo o cultivo, trabalho e rendimentos na propriedade eram para ela e o esposo.
“Trabalhamos muito para dar estudo aos filhos”, relata ela com brilho nos olhos e a nostalgia de quem construiu seu próprio legado, confirmando a força da mulher no meio rural. Na propriedade de muitos hectares, hoje boa parte é ocupada pelo plantio de eucalipto para reflorestamento, a outra foi alugada para um vizinho.
A casa, inicialmente de madeira, foi ampliada ao longo do tempo. Tijolos e concreto a tornaram mais resistente, prática e confortável, especialmente para Terezinha que há seis anos se submeteu a uma cirurgia no quadril. Mesmo com as transformações na propriedade, não esquece do quanto correu pela casa, trabalhando, brincando e esbarando nos tantos irmãos e em alguns móveis. Uma escada levava ao sótão onde havia quartos, mas nenhuma janela. Sempre que recebiam visitas, as crianças dormiam no sótão.
Sua rotina, embora mais lenta que no passado, ainda começa cedo. Não tem o compromisso, o dever de ir pra lida, ainda assim, após os afazeres domésticos, passa a maior parte do dia do lado de fora da casa (um dos filhos mora ao lado) cuidando da horta, fazendo umas “capinas”, plantando cebola, feijão, milho. Desfez-se dos animais domésticos, mas tem dois cachorros: Bita e Branquinho, fiéis guardiões que acusam qualquer movimento.
Hoje cultiva uma nova colheita: o afeto dos netos Betina (8 anos), Bruna (5 anos), Lorenzo (5 anos) e João Miguel (2 anos). “Adoro a companhia deles, são minha maior riqueza. Eles me trazem vida e eu gosto de ensinar o que sei, de contar as histórias da minha época”, completa.
Terezinha já fez muito tricô, crochê, bordou o próprio enxoval quando moça. Hoje não faz trabalhos artesanais/manuais. Ocupa o tempo com a leitura deste jornal. Participa do Apostolado da Oração, Grupo de Idosos Vida e Esperança, faz ginástica de 15 em 15 dias na sede do município, reza toda vez que recebe a Capelinha e no último sábado de cada mês, participa da missa, celebrada no salão da comunidade que tem hoje em torno de trinta famílias.
A história de Terezinha Bianchini é um lembrete do valor das histórias orais e da importância da integração familiar na velhice, mostrando que, mesmo após uma vida de esforço intenso, o aconchego do presente e o amor familiar são o melhor dos descansos.



