
Na última vez que estive em Arroio do Meio percorri parte do bairro Navegantes, às margens do rio Taquari. Com muita dor no coração vislumbrei máquinas limpando terrenos que abrigavam residências e outros imóveis. Tudo foi devastado pelas três enchentes – de setembro e novembro de 2023, e maio de 2024.
Andando pelas ruas de Arroio do Meio e conversando com amigos e leitores, soube que inúmeras famílias, em diversos municípios do Vale do Taquari, ainda “vivem de favor”. Estão alocadas em casa de vizinhos, amigos e familiares desde a catástrofe. Trata-se de uma situação inadmissível. Afinal, exatamente hoje se completam dois anos do início da maior catástrofe climática da nossa região.
Sou sabedor da burocracia para a realização de obras por parte do poder público. Infelizmente a maldade de pessoas, que ignoram o sofrimento alheio a ponto de desviar donativos, amplia o leque de exigências legais e dispositivos de segurança para evitar roubos. O que – cá entre nós – muitas vezes não surte efeito, como vemos com episódios envolvendo prefeitos da nossa região.
Sei, também, que boa parte das verbas milionárias investidas em campanhas publicitárias – ou seja, propaganda, no bom português – poderia ser alocada para agilizar o processo de acomodação desta legião de moradores atingidos pelas enchentes. “O meu Rio Grande está diferente” de Eduardo Leite, e “Governo do Brasil, ao lado dos brasileiros”, são slogans que nem sempre correspondem à realidade.
Muito foi feito, mas se gastam milhões
em propaganda, o que não é prioridade
Por vezes me pego pensando no desenvolvimento de tantos segmentos da vida moderna. A tecnologia, onipresente e ditadora de hábitos e comportamentos, se mostra incapaz de transformar pessoas em seres realmente humanos.
É cada vez mais difícil promover a comunicação entre as pessoas. Vejo, estarrecido, jovens com imensa dificuldade de conviver no ambiente profissional, o mesmo ocorrendo em seu círculo social. A “comunicação através das telas” se mostra uma fuga cômoda, onde não é preciso exercitar o “olho no olho”. Basta digitar. Ou ignorar a mensagem do interlocutor.
Nestes dois anos perdi a conta das histórias que colhi em minhas andanças. São episódios de dor, perdas, sofrimento, superação e marcas indeléveis que irão perdurar por décadas, gerações. A exemplo que os nossos pais e avós faziam em relação à até então insuperável “enchente de 1941”.
Muito foi feito, mas muitos mais poderia ter sido realizado para minimizar a dor, o sofrimento e as injustiças de quem teve os sonhos tragados pelas enchentes.

