
Uma cena quase cômica do atentado no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington, promovido pelo Presidente Donald Trump, dias atrás, me fez lembrar de episódios de minha adolescência.
Primeiro, eu ficava me questionando porque sou colorado, se meus pais, irmãos e todos os meus parentes próximos são gremistas. A explicação ficou clara quando fui ao sepultamento de um amigo de infância que não via há muito tempo. Estava com a camisa do internacional, a bandeira sobre o caixão e todos os filhos com a camisa do colorado.
Era a década de cinquenta, posterior ao famoso rolo compressor de 1940. Florindo, Oreco, Larry, Bodinho, Chinesinho… Sabíamos o time de cor. Os desenhos em meus cadernos eram cenas dos jogos, chutando ou passando a bola para o companheiro. Eu imitava a transmissão de rádio das partidas… Jogos na rua ou campeonatos de jogo de cabeça eram realizadas em nossa casa ou na dele.
Depois perdemos contato.
Criado sem pai, que faleceu jovem, trabalhando em obras de estrada, acabou se perdendo na bebida. Já alcoólatra, tornou-se inconveniente. Lembro certa vez tê-lo visto em um baile, bêbado, caído ao chão. Ninguém tinha coragem de tocá-lo, pois diziam que tornava-se violento. Vendo a cena, meu pai, que era da diretoria, pegou-o pelos pés e o arrastou porta afora.
Em outra ocasião, em um baile no interior, estava eu dançando quando estourou uma briga em um dos lados do salão.
Os frequentadores correram todos para o lado da cozinha e fui arrastado pela multidão. O salão, do outro lado, limpou em segundos.
Quando olhei vi homens e mulheres engalfinhados, mesas virando, cadeiras voando, aquela gritaria…
Quem vejo, calmamente sentado junto a uma mesa, ao lado da briga? Meu amigo de infância, degustando sua cerveja…
Quando a briga chegou nele, calmamente levantou-se, pegou a garrafa e seu copo e afastou-se dois passos para o lado, deixando a briga passar…
A cena me veio à memória quando vi as cenas do atentado no jantar de Trump. Os tiros, a correria, gente jogando-se ao chão, pessoas fugindo do salão… e um convidado, calmamente sentado à mesa, degustando sua lagosta e seu champanhe como se nada estivesse acontecendo.
Meu amigo recuperou-se; tornou-se exemplo de cidadão; ajudou muitas pessoas; mas isso será motivo para outra crônica. Feio foi alguns correspondentes surrupiando garrafas das mesas após o atentado… e João Fonseca quebrando raquete como um alucinado.

