
Escrever com as mãos congeladas é um desafio clássico do inverno. Para aquecer a digitação e a criatividade no frio, tento usar luvas sem dedos, ou muito finas, muito café, eventualmente chá e a sala aquecida. E a inspiração? Ela está perdida em uma praia ensolarada, com temperatura amena. A alternativa é um quase exercício aeróbico ao digitar com os dedos enrijecidos pelo ar gélido. E lutar para evitar a tensão nos ombros, manter os pulsos alinhados e relaxados ao usar o teclado.
Artistas frequentemente abordam o frio como uma dualidade: ele pode representar isolamento, melancolia e a “solidão” do distanciamento, mas também é visto como um refúgio acolhedor que incita a introspecção, a criatividade e a valorização das conexões humanas. Uma metáfora para o fim de relacionamentos e a distância emocional.
Entre os gaúchos, o pelotense Vitor Ramil defende – e eu apoio – a “estética do frio”. Ele explora como o clima molda a identidade, a sensibilidade e a produção artística regional, transformando o inverno em um estado de espírito reflexivo. Mas nem todos conseguem tempo para isso. É o pedreiro encarando um cimento frio, numa rua gelada, ou aqueles que trabalham entre o calor dos fornos e a necessidade de ir a salões nem tão aquecidos.
E aí surgem as ameaças à saúde, tosses, gripes e dores articulares. Eu vivo uma simbiose de tudo isso. Os joelhos estalam feito gravetos secos, a musculatura se enche de dores. Sim, porque o corpo fecha os vasos sanguíneos para manter os órgãos vitais aquecidos, reduzindo o fluxo de sangue nos músculos. E o que acontece com esse colunista veterano? tensão muscular, perda de flexibilidade e maior sensibilidade à dor. Em outras palavras, eu sofro!
Então, aos fãs do frio, eu deixo minha inveja. Certamente é gente que não sofre nada do que escrevi aí em cima. Um povo que sai a cantar as delícias de dormir entrouxado, de dar um tempo aos carinhos mais íntimos ou, ao contrário, investir com a criatividade de um urso polar ou igual a uma barra de gelo aquecida pela teimosia. Cada um com suas fantasias, artifícios ou mero estilo. Eu sigo aqui, cortando lenha, com os pés enrolados por meias grossas e pronto para uma série qualquer da televisão. Ainda é maio! Tem muito calendário para me ensinar a domar esse frio. E quando chegar o verão, eu sei, vou reclamar também.

