Já vem de tempos a ideia de que o Rio Grande do Sul é um celeiro de oportunidades de trabalho, um local bom para viver, formar família, de um povo que cultiva hábitos saudáveis, mantém tradições fortes como o chimarrão, churrasco e esporte e acima de tudo um povo solidário e acolhedor.
Nosso inverno rigoroso tem afugentado muitos que se encantam pela paisagem, outros que não suportariam os frequentes desastres climáticos. Ficar ou partir é uma questão de escolha ou mesmo necessidade. Ainda assim, tantos que chegaram e tiveram este choque de realidade, decidiram ficar.
Alice Barros da Silva, 28 anos, nasceu em Porto Velho, Rondônia. Hoje reside no bairro Rui Barbosa em Arroio do Meio e não teve dificuldades para adaptar-se. Descreve os arroio-meenses como hospitaleiros.
Uma jovem de origem indígena, que aos 22 anos saiu de Porto Velho para encontrar a mãe que havia casado novamente e trabalhava num Spa em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha. Por alguns meses, Alice trabalhou ao lado da mãe, porém com o início da pandemia da Covid-19, o local fechou e frente a dificuldade de encontrar um novo trabalho, aceitou o convite do namorado que era de Arroio do Meio, e mudou para esta cidade, onde vive desde 2020.
Em Arroio do Meio, logo conseguiu trabalho, como atendente na Farmácia São João. Testemunhou a enchente de maio de 2024, e com a farmácia fechada devido a destruição, ficou sem trabalho, mas assim que a mesma foi reinaugurada ela foi chamada para trabalhar novamente.
FAMÍLIA: A irmã Amanda, 23 anos, veio visitá-la há três anos e se encantou com a cidade e com o namorado que conheceu pela Internet. Hoje reside com ele em Teutônia. Outra irmã, Aline, 25 anos, continua em Porto Velho, odeia o frio e dificilmente virá visitá-la.
Diz sentir muita saudade dela, da sobrinha de 5 anos e demais familiares que permanecem em Rondônia e faz tempo que não os vê.
A mãe Narci, 43 anos, continua residindo em Caxias do Sul e a filha tenta convencê-la vir para Arroio do Meio, “aqui tem emprego para escolher e também vai estar mais perto dos netinhos”, disse. Alice conheceu o marido, Argelo Cardoso Filho, pela internet. Estão juntos desde então e tem dois filhos: Dylan, 3 anos, e Alana de apenas 9 meses.
Quanto à enchente, também em Porto Velho elas são frequentes. Se chove muito, o rio Madeira se conecta ao rio Amazonas (semelhante ao encontro dos rios Taquari e Forqueta, divisa dos municípios de Arroio do Meio e Lajeado). Só que lá o povo está mais preparado. São mais organizados. Cada um tem seu barquinho e acabaram por fazer suas casas flutuantes, projetadas justamente para subir e descer com o nível da água, funcionando como um ecossistema adaptado, explica. A proteção, contra a correnteza para evitar que sejam levadas, inclui técnicas ribeirinhas tradicionais: as casas flutuantes são amarradas com cabos de aço ou cordas grossas em árvores firmes nas margens, ou grandes tocos, também utilizam âncoras pesadas para manter a estrutura fixa no local.
Obviamente aqui a realidade é outra. Não temos como amarrar as casas pois não são flutuantes e mesmo as árvores, foram arrancadas com a força da água.
Perguntada sobre voltar para Porto Velho ou então para Caxias do Sul… disse que só à passeio, morar não. Aqui tudo é melhor, acesso facilitado à educação, postos de saúde e vida comunitária, principalmente por Arroio do Meio ser uma cidade tranquila e menor.
Estive na farmácia São João e tive o privilégio de ser atendida por ela num de seus últimos dias de trabalho junto à empresa. Simpática, um sorriso lindo e extremamente focada no atendimento, sem deixar de dizer, uma mãe preocupada com a saúde dos filhos. Ela vai abrir mão do trabalho formal para cuidar dos pequenos. “Decidimos ter apenas dois filhos e o inverno gaúcho castiga, aqui é frio demais e como pais, a saúde deles vem em primeiro lugar”. A bebê teve bronquiolite duas vezes. Certamente, mais adiante voltará para o mercado de trabalho. É jovem e disse ter vontade de crescer profissionalmente, apenas não decidiu a linha que quer seguir. No momento a prioridade é a saúde das crianças, finalizou.
Por Neusa Alberton Bersch



