Por Neusa Alberton Bersch
A árvore, ou talvez seja um arbusto gigante e exótico, que há mais de 100 anos foi plantado próximo à moradia da Família Gregori, em São Luiz/Capitão, chama atenção por sua forma. As irmãs, Lidia (82) e Lorena (80), contam que o pai Aloísio, falecido em 1988 aos 75 anos, dizia que a árvore havia sido plantada pelo avô que teria colocado lado a lado duas mudas (talvez temendo que uma delas não vingasse) e, na medida que cresciam, ele manualmente as entrelaçava, o que fez com que ganhassem tal forma, parecendo um bonsai gigante.
Depois de ganhar altura e ter uma composição semelhante ao cipreste, galhos longos que seguem como uma videira, uma sustentação de madeira transformou a copa da árvore numa área ao ar livre, um telhado natural onde a família e mesmo as visitas, costumavam sentar para tomar mate, descansar e prosear. “Há muito tempo mandei colocar umas colunas de concreto, pois a madeira que sustentava o peso apodreceu e tudo podia cair”, conta Lorena.
A natureza é um milagre da criação e a planta, então com bem mais de 100 anos, continua crescendo e seu formato encanta quem por alguma razão visita as irmãs Gregori. Por indicação de um leitor, visitei as irmãs para ver a planta, mas o que de fato me comoveu, foi a história de vida delas. Me fez refletir e acreditar que, o CÉU tem que existir, ele precisa existir pois não é possível que a vida reserve tantas penas que sejam tão duras para algumas pessoas. Em algum momento elas precisam ser recompensadas.
Lorena Gregori viveu por quase 30 anos em Porto Alegre. Aposentou-se por tempo de serviço no Hospital Conceição, mas sua história iniciou mesmo em Capitão, em meio à família de dez irmãos. A vida sempre foi difícil, muito trabalho, dificuldades, pobreza. Precisou sair de casa aos 15 anos pois a irmã menor, Ilda, de apenas três anos adoeceu e permaneceu internada um longo período no hospital de Arroio do Meio, onde faleceu. Sem dinheiro para pagar a conta do hospital, o pai levou Lorena até a instituição para que permanecesse trabalhando o tempo necessário, afinal: era preciso pagar a conta. Quitada a dívida, permaneceu trabalhando no hospital, posteriormente no Seminário de Arroio do Meio e depois como doméstica em casas de família. Deste período, lembra que em algumas casas foi difícil trabalhar, era quase uma forma de escravidão, onde exageravam na quantidade de tarefas que mandavam fazer.
Sem perspectivas em Arroio do Meio, foi trabalhar como doméstica em Porto Alegre. Era década de 1960 e depois de alguns meses, conseguiu trabalho no Hospital Lazzarotto. O Hospital Clínicas Dr. Lazzarotto, foi um importante complexo privado de saúde em Porto Alegre fundado em 1957 e referência em cardiologia. Encerrou suas atividades em 1995 devido à falência.
Neste hospital, Lorena abraçava todos os turnos que podia, afinal, queria juntar dinheiro para comprar uma casa, já que morava de pensão em casas de família, dividindo cômodo com outras moças. Depois foi para um Pensionato de Padres, como forma de economizar. A experiência profissional em duas casas de saúde rendeu uma oportunidade de trabalho no Hospital Conceição, para atuar diretamente com crianças.
Fez carreira. Era uma excelente profissional e permaneceu ali por mais de 20 anos. Cumpria uma carga horária exaustiva. Abraçava o mundo e as oportunidades dentro da casa de saúde, sempre focada e determinada a acumular o máximo possível para construir a casa. “Construí uma boa casa em Gravataí. Morei lá por alguns anos enquanto ainda trabalhava no hospital. Após a aposentadoria permaneci mais um período trabalhando, mas já estava cansada daquela rotina”, relata, como quem ainda sente nos ombros o peso da responsabilidade.
A vida longe de casa podia representar coragem e independência, mas não era fácil. Mesmo que visitasse a família uma vez ao mês, sentia saudades. Após o falecimento do pai, percebeu que a mãe Rosalina e a irmã Lídia, viviam sozinhas e precisavam da sua companhia. A preocupação com elas a fez planejar o retorno definitivo a Capitão depois de sete anos. Residindo em Gravataí, convivia com os riscos e insegurança dos grandes centros urbanos: foi assaltada algumas vezes e sobreviveu. Estava aposentada, tinha algumas economias e novos planos.
CAPITÃO – “Parecia que o tempo tinha parado: Capitão acabava de se tornar município, e Beneduzi era o prefeito”, lembra. Os demais irmãos, já adultos, não moravam mais ali. Na propriedade rural o serviço era todo braçal. A ordenha das vacas, o pasto dos animais, não havia água encanada. Lorena começou equipando a propriedade com carrinho de mão, picador de pasto, ordenhadeira, motosserra e uma roçadeira, segundo ela, a mãe e a irmã viviam quase que no meio do mato, tinha muita capoeira ao redor da casa e não podia ver aquilo. Ela reservava os dias de chuva para arrancar a caxumba que proliferava pelo pátio. A casa está localizada bem abaixo do nível da rua/estrada geral, onde o acesso é dificultado pela descida íngreme.
Por muitos e muitos anos, a rotina de trabalho foi intensa. Lorena e Lídia trabalharam como quando eram meninas: plantavam milho, pinhão, aipim e mantinham algumas cabeças de gado, além de canteiros de verduras e frutíferas. Depois de alguns anos, ao lado da casa velha de madeira na qual nasceu e cresceu, Lorena construiu uma nova para terem conforto. Como tinha seu próprio automóvel, não dependiam de outras pessoas para ir e vir.
Uma vida de trabalho, um golpe na confiança
O tempo foi passando e muita coisa mudou ao longo dos últimos 30 anos. Segura e administrando as próprias finanças, comprou um imóvel em São Caetano, pensando em obter uma renda para a velhice. Nesta casa, há anos vive um irmão. No imóvel de Gravataí uma irmã se instalou. Lembra com tristeza de ter feito negócio com um amigo da família, quando na verdade, colocou suas economias na mão de um golpista, para que construísse outra casa em Arroio do Meio. “Amigo de longa data, vinha comer na nossa casa e saía carregado de frutas e produtos coloniais, sumiu do mapa”, lembra com uma dor profunda no olhar.
Parou de dirigir há alguns anos. Depois de dirigir por quase três horas na cidade de Lajeado, tentando localizar um sobrinho que estava em apuros, percebeu que estava sendo seguida. Apavorada, perdeu-se ao ponto de não conseguir sair de Lajeado e retornar para Capitão. Com dificuldades e desnorteada, chamou atenção da polícia que a liberou sem aplicar multa de trânsito, mesmo estando sem cinto de segurança. Ainda hoje não sabe como achou o caminho da volta, mas desde então não voltou a dirigir, e o sobrinho, acabou morrendo em circunstâncias desconhecidas.
Hoje dependem dos outros para ter acesso à saúde. É grata a alguns vizinhos que foram solidários, seja auxiliando-as no trabalho na propriedade ou em questões de saúde. As irmãs tem extrema dificuldade de audição. Lidia (82) é praticamente surda. Lorena (80) está na mesma situação, pois foi preciso falar muito alto, quase gritar para se fazer ouvir. Ela aguarda desde janeiro ser chamada pelo Posto de Saúde do município para uma consulta, já que o aparelho de surdez está estragado desde a data.
Na casa não tem rádio. “A gente teria que colocar no volume mais alto, ainda assim não conseguimos escutar nada. A antena parabólica tem problema e é difícil conseguir alguém para consertar. Há anos não assistem televisão e garantem que ela não faz falta. Na casa não há telefone. O único meio de comunicação, o contato com o mundo “exterior”, é por meio deste jornal, do qual são assinantes há quase 40 anos.
Há alguns anos uma das irmãs que vivia em Porto Alegre, apareceu na casa sem avisar. Além da mudança, trouxe consigo as três filhas que apresentam algumas deficiências. Por aproximadamente um ano viveram sob o mesmo teto, fazendo todas as refeições na casa por conta das irmãs que tem como única fonte de renda o próprio benefício do INSS. A partir de então, a irmã com suas filhas, mora na casa que pertencia aos pais, ao lado da casa de Lorena e Lidia.
Quanto às casas que Lorena construiu após trabalhar por décadas e economizar muito, dividindo espaço com estranhas sem conforto algum, elas existem, mas não obtêm qualquer retorno financeiro delas.
Indescritível o sentimento que nos invade quando nos deparamos com tais situações. Lorena e Lídia Gregori cuidam uma da outra. Se fazem companhia e se protegem da maneira que podem. Durante a visita, houve momentos de risos, lágrimas, lembraram de fatos, indignação e uma alegria que saltava aos olhos por terem recebido nossa visita. Igualmente fiquei feliz, pois nada acontece por acaso. Tive o privilégio de conhecer duas mulheres incríveis que pecam por serem tão boas, humanitárias e sensíveis. Torço para que a cumplicidade e irmandade delas dure para sempre.



