Movidos pela fé e numa forma de agradecimento, neste domingo, 8 de fevereiro, a Comunidade da Linha Alegre, Capitão, irá receber visitantes de diversas localidades para a realização da tradicional festa da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes.
Em 2025 a festa precisou ser cancelada. A área verde no entorno, que encanta pela beleza natural, o pavilhão e estradas que dão acesso ao local, haviam sido duramente atingidos pelo excesso de chuvas ocorrido em maio de 2024, quando a força das águas provocou desmoronamentos, destruição de casas e estradas, não apenas em Linha Alegre, mas em diferentes pontos do município e na região do Vale do Taquari. Apesar dos percalços, a comunidade de Linha Alegre, embora pequena, visto que existem poucos moradores (a própria gruta tem apenas cinco sócios), não abandonou sua fé e nem este local sagrado que é visitado por muitos fiéis que mantém o hábito de ir até o local para rezar, pedir e agradecer.
Neste ano, há um motivo a mais para comemorar. O município que há alguns anos é responsável pela manutenção desta área, de certa forma reconstruiu o local, assim como retirou árvores, postes e toneladas de terras que caíram sobre as estradas, que impediam acessar o local.
A Gruta
Por volta de 1933, Francisco Secchi, antigo morador da Comunidade de Alto Palmas/Brasinha, descobriu nos fundos da sua própria área de terras, o local, com uma queda d’água belíssima e uma gruta que parecia ter sido esculpida (ou talhada) na parte inferior do gigantesco paredão de rochas, algo divino. Então, no ano de 1940, Francisco e sua esposa Flora, decidiram doar à comunidade a área onde estava localizada a gruta.
A partir de então os moradores da localidade criaram o propósito de tornar o local sagrado e escolheram Nossa Senhora de Lourdes como padroeira da mesma. Lourdes é a protetora dos enfermos e doentes, sendo também intercessora dos desempregados e profissionais da área da saúde. Com o tempo as famílias passaram a se reunir na gruta, local onde era realizado um culto e depois de algum tempo o padre se dirigia ao local e celebrava a missa. O sentido religioso foi crescendo, foi construído um altar, imagens de santos, bancos para os fiéis acompanharem a celebração. O público aumentando, o local se tornou conhecido atraindo pessoas de outras localidades e mesmo de fora da região, principalmente devotos da Santa, que por sua fé, alcançavam seus milagres.
Conforme dito, a comunidade sempre foi pequena. Rogério Daltoé, morador de Alto Alegre, e ex-vereador do município, sempre soube que foram os moradores e as famílias que residiam em Linha Alegre que começaram a organizar esta história. “Foi com muito trabalho braçal que abriram o acesso ao local que até então era tomado pelo mato, não dispunham de máquinas como hoje. Os moradores se doaram por muitos anos para criar a estrutura e oferecer um espaço com condições para que as pessoas pudessem passar algum tempo ali, para descontrair, se refrescar e rezar, enfim, o local tornou-se sagrado para a comunidade. Daltoé reafirmou a importância destas famílias que viviam na localidade, de sobrenomes Salton, Daldon, Lancini, Daltoé, Beneduzi, Borba entre outras que já não residem mais na Linha Alegre, mas que no princípio, enfrentando inúmeras dificuldades, se doaram ajudando a construir a gruta. Hoje, após reconstruir o local, realizar a festa da gruta é uma forma de agradecer estas famílias que movidas pela fé, criaram este ponto religioso e também turístico”, finalizou Daltoé.
Após a emancipação do município, sempre houve participação da prefeitura nas melhorias dos acessos. Há algum tempo um trecho do acesso à gruta foi asfaltado e há cerca de 10 anos o antigo pavilhão de madeira foi substituído por um pavilhão de alvenaria.
Dentro do turismo regional e mesmo religioso, a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes oferece um espaço bonito e acolhedor, a estrutura de organização e limpeza elogiável. Nos finais de semana o local está aberto para visitação, oferecendo lanches e bebidas, inúmeras churrasqueiras estão dispostas no local e todo o pátio na área de circulação foi asfaltado (Gamma Arquitetura Engenharia e Construção).
A participação da comunidade de Linha Alegre na realização da festa foi e sempre será fundamental para a continuidade deste evento festivo.
O envolvimento das famílias perpassa gerações. Antigos moradores, Agostinho Salton e seu irmão Luiz (ambos já falecidos, foram os primeiros festeiros), na segunda geração, Antenor, Agenor e Antônio Salton, moravam nas proximidades e mantiveram firme o propósito de cuidar da gruta e seguir realizando anualmente no mês de fevereiro a festa de Nossa Senhora de Lourdes.
Agenor Salton (79) se mantém firme na fé e ajudando os sobrinhos (foto). Antenor Salton, infelizmente, faleceu há menos de quatro meses. Hoje, seus filhos Rovanir Salton e Karine Salton Damasio estão à frente dos preparativos, contando com o apoio incondicional das famílias da comunidade. Para Karine, que reside em Coqueiro Baixo e permanece sócia da gruta, “com a morte repentina do nosso pai, e a perda do meu filho Hiarley, de um ano e cinco meses, alguns dias depois, até cogitamos não participar dos festejos, não tomar a frente, mas, nosso pai e todos aqueles que tanto trabalharam e se doaram para ter este local, merecem nosso esforço. Fazer esta festa, poder reconstruir a gruta depois de tantas coisas que vivemos, manter viva esta fé, é uma forma de homenageá-los.”
Por Neusa Alberton Bersch
e Júlio Alberto Gerhardt







