Sair do interior rumo à cidade grande é, para muitos, um salto no escuro. Para Jurema de Souza, 62 anos, o destino não reservou apenas o concreto da cidade grande, mas o brilho dos palcos e a convivência íntima com grandes nomes da cultura brasileira.
No final da década de 1970, aos 14 anos, em busca de trabalho e crescimento pessoal, ela trocou a tranquilidade de Linha Alto Alegre, interior de Capitão, pelo ritmo frenético de Porto Alegre. A irmã Tereza havia feito o mesmo algum tempo antes, assim como tantas outras jovens que saem do interior em busca de melhores oportunidades de trabalho na cidade grande.
Em Porto Alegre, por mais de uma década, Jurema trabalhou como doméstica em casas de família. Economizando praticamente tudo o que recebia, em poucos anos conseguiu realizar o sonho de ter uma casa no bairro Sarandi. Decidida e corajosa, foi uma jovem à frente do seu tempo, tornando-se mãe solo aos 20 anos.
A rotina intensa de trabalho, especialmente no período noturno, dificultava o cuidado com a filha e, pensando numa melhor qualidade de vida para a menina, trouxe-a para residir com a avó materna Elvira de Souza, em Capitão. Nos 10 anos seguintes trabalhou em empresas como Neugebauer e Beralv Clorosul S/A. Paralelamente, fez cursos de segurança e passou a atuar também como segurança particular e vigilante, trabalhando em eventos de pequeno a grande porte.
Nem nos melhores sonhos ela poderia imaginar o que o destino lhe reservava. Por indicação de uma amiga, surgiu a oportunidade de trabalhar como segurança para a Família Lima, que vivia num condomínio de alto padrão no bairro Anchieta, em Porto Alegre. Tal experiência foi um divisor de águas em sua vida.
Contratada para trabalhar na residência, confessa que o frio na barriga inicial deu lugar a uma surpresa gratificante. Além do bom salário, logo se viu imersa em uma rotina que poucos conhecem: o cotidiano por trás da fama. A agenda de trabalho da família só crescia, restringindo a sua. Mas, sempre que podia, retornava a Capitão para ver os pais Pedro e Elvira e a filha Juliana.
“A gente cria uma imagem de que essas pessoas são intocáveis, mas o que eu vi foi o oposto, fui acolhida como parte da família. Lorena, esposa de José Lima e mãe de Moisés, Amon e Lucas, tinha quase a minha idade. Nos dávamos muito bem”, afirma. O sobrinho Allen era outro integrante da Família Lima. “Residindo na casa, eu era responsável pela organização da rotina doméstica, uma espécie de governanta/segurança. As refeições eram junto à mesa, com a família. De certa forma passei a conviver com o círculo pessoal dos familiares, não ficando restrito às paredes da casa. Acompanhava-os nos shows, viagens e outros compromissos”, relembra.
Um ano depois, em função da carreira, a família Lima mudou-se para São Paulo, passando a viver em outro condomínio de alto padrão que, segundo ela, mais parecia um sítio. Simplicidade, familiaridade. Na cozinha da casa, entre um café e outro, os meninos instrumentistas, gostavam de preparar o próprio sanduíche. Ali ouviu histórias de carreira e pôde presenciar a simplicidade de quem vivia um sucesso estampado pela mídia, mas que não abria mão dos valores familiares.
Em São Paulo, vivenciou a adrenalina dos bastidores, estúdios e a energia das plateias que lotavam os shows, embora sempre permanecesse no camarim, zelando pela segurança e aguardando o retorno dos artistas. Junto deles, geralmente em camarote, assistiu shows de grandes artistas como Daniel, Leonardo, Paulo e Paulinho, Chitãozinho e Xororó. Quando o compromisso era ir aos estúdios, gravadoras e rádios, acompanhava-os. Ali conversou com Roberta Miranda, Padre Marcelo Rossi, Tammy e outros famosos.
A Família Lima possuía um sítio no interior paulista e era comum receberem amigos, boa parte destes do meio artístico/cultural, como a cantora Sandy, da dupla Sandy e Júnior. Na época, Sandy era namorada de Lucas Lima e presença constante tanto no condomínio quanto no sítio, assim como seus pais, Xororó e Noeli.
Estar em meio a artistas e com frequência esbarrar com famosos dentro de casa não é algo comum. Jurema guarda boas lembranças do cantor Daniel que sempre levava o violão e fazia questão que todos cantassem. “Cada visita, cada churrasco no sítio, virava um show e eu estava ali, assistindo, conversando e cantando com eles. Nunca pensei que pudesse viver tudo isso, trabalhando com eles fui feliz demais e só tenho a agradecer”.
Em 1992 Jurema decidiu retornar ao Sul, permanecendo os 10 anos seguintes em Porto Alegre, onde seguiu trabalhando. Em dado momento a voz do coração disse que era hora de voltar pra casa, para estar mais perto da família. Vendeu a casa que tinha na capital e construiu em Capitão, residindo ao lado da filha Juliana, casada com Adalberto Giaretta.
Trouxe para morar com ela a mãe Elvira, já viúva. Esta veio a falecer em 2022 aos 89 anos. “No período no qual vivemos juntas, fomos muito felizes. Dediquei a ela o mesmo cuidado e amor que ela deu à Juliana, sendo avó e mãe ao mesmo tempo”. Hoje, Jurema de Souza segue vivendo em Capitão. Na casa ao lado, tem cheirinho de criança, afinal é avó dos gêmeos Leandro e Larissa, de sete anos, e de Luana, de seis anos.
Para quem saiu de longe em busca de oportunidades, ela não encontrou apenas um emprego, mas uma lição, o verdadeiro sucesso caminha de mãos dadas com a humildade. “Na Família Lima, sempre que o show acabava, os artistas voltavam para casa. O lar e a família permaneciam sendo o porto seguro para o qual faziam questão de retornar e receber amigos queridos, mesmo que estes não fossem famosos”, finaliza.



