O centenário pé de cica que resiste ao tempo e segue crescendo no pátio da residência da família Steiger, em Travesseiro, provavelmente nasceu antes mesmo de a localidade ser povoada, possivelmente ainda no final do século XIX. A família sabe, com segurança, que a planta está ali há mais de 120 anos.
Augusto Gabriel Steiger, de 13 anos, tataraneto de João Steiger — imigrante vindo da Alemanha —, bisneto de João Alfredo Lavall, neto de Ernildo Steiger e filho de Nilson Steiger, o Barriga, cresceu ouvindo que o arbusto já fazia parte da paisagem antes mesmo de o avô adquirir a pequena chácara, com área inferior a um hectare. Conforme registros da família, à época os vizinhos de terras eram famílias de sobrenome Backendorf, Heineck e Deves. Em parte dessas áreas foi construída a sede do Clube Travesseirense. Atualmente, o alambrado do campo de futebol faz divisa com a propriedade dos Steiger.
No entorno da “cica”, cujo tronco tem menos de 1,5 metro de altura, Augusto viveu muitos dos melhores momentos da infância. Correu, brincou, se escondeu dos cachorros e jogou futebol usando o arbusto — já centenário — como goleira e alvo. O tronco espinhento sempre impediu qualquer tentativa de escalada. Sem galhos, não servia para balanço nem oferecia sombra. Também nunca deu flores ou frutos e, por vezes, quase passa despercebida aos olhos de quem não conhece sua história.
Mesmo assim, a planta jamais foi retirada. Há mais de 50 anos, um visitante que passava pelo local insistiu em comprá-la, oferecendo uma quantia considerada elevada à época, que aumentava a cada recusa da família. “Devido à insistência, o pai pediu um valor absurdo para afugentar o homem, mas ele ainda tentou fazer novas ofertas. Ele queria muito a planta, que de fato parece diferente das espécies que se vê hoje nos jardins”, conta a tia de Augusto, Inês Steiger, de 65 anos.
A cica (Cycas revoluta) é uma planta ornamental pré-histórica, nativa do Japão e de regiões da Ásia. Resistente e de fácil cultivo, adapta-se bem ao pleno sol ou à meia-sombra e pode viver de 50 a mais de 200 anos. Apesar de se assemelhar a uma palmeira e atingir no máximo dois metros de altura, todas as suas partes são tóxicas e podem ser fatais se ingeridas, especialmente as sementes.
Em jardins japoneses, onde são altamente valorizadas, há registros de exemplares com mais de 1.100 anos, e algumas estimativas apontam que certas plantas possam ultrapassar os 2.000 anos de vida. Em condições ideais, a cica se transforma em uma verdadeira herança de família.
Mas a relação de Augusto com o pé centenário vai além da planta. O jovem sempre demonstrou curiosidade por tudo o que remete ao passado. Segundo a mãe, Elizete Steiger, desde cedo ele se interessa por historiografia, eventos e fenômenos históricos, especialmente do período greco-romano. Astronomia, a possibilidade de vida em outros planetas e os dinossauros também sempre despertaram seu fascínio.
Ela recorda que, ainda na Educação Infantil, mesmo sem saber ler, qualquer livro que tivesse imagens de dinossauros era o primeiro a ser escolhido. Em casa, os pais e o dindo Gilsomaro — mestre em História e diretor de escola — eram frequentemente chamados para contar histórias. O hábito seguiu com o passar dos anos: sempre que pessoas mais velhas visitavam a família e relembravam fatos antigos, Augusto ouvia atento.
Em 2005, a família Steiger foi contemplada com uma casa do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), juntamente com outras famílias do município. Com o tempo, a residência foi ampliada. O pé de cica, com mais de 120 anos, testemunhou o crescimento da família e também as despedidas, como o falecimento de Nilson Steiger, o Barriga, há quase dois anos, e da avó Sidônia Friedrich Steiger, aos 87 anos, em março de 2025.
Barriga foi um grande incentivador do esporte e, por muitos anos, dedicou-se a ensinar futebol a meninos e meninas na escolinha que ele próprio comandava, sempre com o apoio das famílias. Recentemente, durante um campeonato municipal em Travesseiro, muitos ex-alunos — hoje na faixa dos 40 anos — formaram o time “Escolinha do Barriga” para participar da competição, gesto que emocionou a família Steiger.
Preservar histórias, objetos, livros e árvores centenárias, seja em museus, gavetas ou no próprio pátio de casa, é uma forma de compreender a própria origem, homenagear antepassados e valorizar conquistas construídas em tempos muito diferentes dos atuais.
Nesse contexto, Augusto é também um privilegiado. A família guarda com zelo uma pequena Bíblia escrita em alemão, utilizada pela avó Filomena Steiger nas aulas de catequese em 1911. Outra Bíblia de bolso, também no mesmo idioma e datada de 1933, com anotações manuscritas, pertenceu ao bisavô João Alfredo Lavall.
A Bíblia de 1911, com mais de 115 anos, permanece em perfeitas condições e plenamente legível — podendo ser lida mesmo na falta de energia elétrica. Algo que talvez não se possa garantir em relação às informações e imagens armazenadas hoje em computadores ou celulares daqui a mais 116 anos.



