A pressão e o impacto com que o leite em pó vindo de outros países exerce sobre o agronegócio brasileiro, coloca os agricultores do estado e do país em atenção redobrada. A queda expressiva no preço pago ao produtor tem colocado em xeque a sustentabilidade da atividade, especialmente entre pequenos e médios agricultores, que enfrentam dificuldades para manter a produção diante do aumento constante dos custos com insumos, energia elétrica, ração e mão de obra.
Mesmo com investimentos recentes em tecnologia, e melhorias estruturais para atender as exigências do mercado e da indústria, muitos produtores se veem hoje endividados e/ou trabalhando no limite financeiro. O cenário de rentabilidade cada vez menor, aliado ao trabalho redobrado no campo, acende um alerta sobre o risco real de abandono dos setores produtivos do agronegócio. Para mitigar os efeitos da crise do setor leiteiro, segundo anúncio feito em dezembro do ano passado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a instituição realizaria a abertura de uma operação para compra de 2,5 mil toneladas de leite em pó junto a cooperativas vinculadas a pequenos produtores rurais de sete estados brasileiros.
Segundo o Engenheiro Agrônomo e chefe do escritório da Emater de Arroio do Meio, André Müller, a queda no valor pago pelo litro de leite não está relacionada apenas a fatores locais ou técnicos da produção, mas faz parte de um contexto mais amplo, que envolve tanto o mercado internacional quanto a dinâmica de oferta e procura. “Em períodos em que a produção aumenta e o consumo não acompanha o mesmo ritmo, a tendência natural é a redução dos preços. Essa oscilação ocorre praticamente todos os anos, embora o valor atual esteja defasado, o que exige atenção e, possivelmente, a adoção de políticas públicas como forma de compensação aos produtores, como a recente medida da Conab de aquisição de leite através da modalidade Compra Institucional do Programa de Aquisição de Alimentos. Apesar do cenário desfavorável no momento, há uma expectativa de melhora nos próximos meses”, explica.
Müller avalia que, com a redução sazonal da produção em determinados períodos do ano, os estoques tendem a diminuir, abrindo espaço para um reajuste nos preços pagos ao agricultor. Embora aumentar a produção possa parecer uma solução, dependendo da forma como é feita, essa intensificação pode elevar significativamente os custos. Para ser sustentável, ela precisa estar associada a alternativas que reduzam o custo da alimentação do rebanho, como o uso de silagem, feno, pré-secado e pastagens perenes. Atualmente, por exemplo, a silagem apresenta um custo mais baixo para quem compra pronta, indicando uma possível alternativa entre produtores.
STR DESTACA APOIO AOS AGRICULTORES
Para o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR, Paulo Roberto Grassi, o sindicato tem acompanhado a situação com preocupação e participa de eventos e reuniões sobre a pauta. “Estamos participando da mobilização junto com a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) e outras entidades, como feito em agosto de 2025 em Porto Alegre. Temos cobrado ação do Governo Federal no que diz respeito à compra de leite pela Conab, no qual foi anunciado o valor de R$ 106 milhões e a reabertura das investigações antidumping, principalmente contra Uruguai e Argentina. Já no governo do estado são conquistados recursos do Funrigs para investimentos e custeio com desconto de 25%”, explica.
Grassi ainda destaca as crises que os agricultores vêm enfrentando nos diferentes setores. “Quem produz leite conhece crises de tempos em tempos. Temos que trabalhar para dar mais estabilidade ao setor, com sustentabilidade. Aumentar o volume de produção parece não ser mais solução para os problemas do setor leiteiro”, finaliza.
PARA KÄFER, PREÇO DO LEITE DEVERIA
ESTAR EM R$ 3 O LITRO
De acordo com o agricultor Valmir Käfer, da comunidade de Linha 32, os impactos da queda no preço pago pelo leite ganham contornos ainda mais concretos. O agricultor faz críticas à falta de atenção do Governo Federal ao agronegócio, especialmente à agricultura familiar. Para ele, o apoio aos produtores de leite na esfera federal é mínimo, enquanto cresce a dependência de produtos importados. Valmir afirma que nunca se ouviu falar em tanta importação de leite em pó como atualmente, o que, na sua visão, representa uma concorrência direta e desleal com o leite in natura produzido no Brasil, pressionando ainda mais o preço pago ao produtor. “Grande parte desse leite em pó chega ao país por meio do Mercosul ou de países como a Nova Zelândia, havendo ainda casos em que o produto passaria por troca de rótulos antes de chegar ao mercado brasileiro”, comenta.
A família trabalha atualmente com cerca de 100 cabeças de gado, das quais 58 são destinadas à produção leiteira. A média diária gira em torno de mil litros de leite, variando conforme as condições de manejo e produção. Ainda assim, segundo Valmir, o valor recebido hoje, em torno de R$ 2 por litro, está longe de garantir tranquilidade financeira frente aos altos custos da atividade. Hoje, o trabalho na propriedade é realizado exclusivamente por Valmir, sua esposa Aneli e o filho Fábio, que seguem resistindo na pecuária de leite apesar das dificuldades enfrentadas diariamente.
Valmir destaca que os gastos com alimentação do rebanho, manutenção da propriedade e investimentos realizados ao longo dos anos tornam a rentabilidade extremamente apertada. Na avaliação dele, a atividade só se tornaria minimamente viável com um valor mais justo, próximo de R$ 3 por litro ou até superior. A situação, segundo o produtor, é ainda mais difícil para agricultores com menor número de vacas em lactação, já que o esforço diário e os investimentos feitos muitas vezes não se refletem em retorno financeiro suficiente para sustentar a família.
Por outro lado, parabeniza o governo municipal pelas ações de apoio. “Não podemos reclamar do município. A Secretaria de Agricultura está sempre de prontidão incentivando a produção e nos apoiando. O município está de parabéns e sempre que possível está ajudando os agricultores”, comenta agradecido.



