
Existe um tipo específico de sofrimento que não aparece nos livros de filosofia, mas deveria: o calor extremo vivido por quem está longe da praia, sem piscina e com um ventilador que mais empurra ar quente do que refresca e um ar-condicionado a ressacar o corpo. É uma experiência quase espiritual — o corpo fica, a alma derrete.
Enquanto alguns reclamam da areia no chinelo e do trânsito até o litoral, eu observo o termômetro subir como quem assiste a um filme de terror. O sol bate direto na janela, o asfalto reflete calor por vingança pessoal e até a água do chuveiro, que prometia alívio, sai morna, cúmplice do clima. O suor vira acessório permanente e qualquer movimento simples, levantar do sofá, por exemplo, exige planejamento estratégico e força emocional.
O mais cruel é o bombardeio nas redes sociais: fotos de pés na areia, drinks coloridos à beira da piscina, legendas como “calorzinho bom”. Para quem está preso numa cidade que cheira a protetor solar imaginário e desespero real, isso soa quase como provocação. A pessoa passa a desenvolver superpoderes estranhos, como identificar sombras a 200 metros de distância e calcular mentalmente se vale a pena atravessar a rua ou esperar o sol se pôr… em três horas.
No fim, resta a esperança de uma brisa que nunca vem, de uma nuvem generosa ou de um amigo com piscina que diga aquelas palavras mágicas: “vem pra cá”. Até lá, seguimos firmes — ou pelo menos úmidos — provando que sofrer no calor, longe da praia, é um ato de resistência. E, convenhamos, um grande teste de caráter.

