
Março vai saindo de fininho, como quem fecha a porta sem fazer barulho, mas deixa a casa em desalinho. Lá fora, o mundo se equilibra num tabuleiro que mistura tribunais, diplomacia e barris de petróleo passando pelo Estreito de Ormuz, onde qualquer suspiro vira cifra no preço do combustível. Aqui, onde moro, a preocupação tem outro nome e outro ritmo: a travessia de balsa no Jacuí, que não aparece no noticiário internacional, mas dita o humor de quem precisa simplesmente ir e vir.
É curioso como a distância engana. Os conflitos parecem longínquos, quase cenográficos, até que resolvem aparecer disfarçados no preço do arroz, da gasolina, do cafezinho no mercadinho da esquina. O mundo dá voltas largas, mas sempre encontra um jeito de passar pela nossa rua.
Enquanto isso, o céu ensaia suas próprias manchetes. O Instituto Nacional de Meteorologia, com sua linguagem sóbria, avisa que a trégua da chuva pode ser só intervalo comercial. Vem frente fria, vem ciclone, vem abril com cara de outono nervoso, desses que batem porta, derrubam galhos e testam telhados. E a gente, com compromissos marcados, olha para o tempo como quem consulta um humorista imprevisível: nunca se sabe se ele vai colaborar ou fazer piada.
Nessas horas, a vida cotidiana ganha contornos de estratégia. Sair de casa deixa de ser rotina e passa a ser cálculo. Há quem possa escolher, como esse casal amigo que decidiu recomeçar longe das margens do Guaíba, buscando um terreno mais firme para os dias instáveis. Mas há também quem fique, não por teimosia, mas por pertencimento. Porque às vezes sair não é apenas mudar de endereço, é desencaixar a própria história.
E assim seguimos, entre previsões e preces, adaptando o passo ao compasso do clima e das notícias. Aqui no Sul, sob a batuta caprichosa do El Niño, a chuva tem sido personagem principal, insistente, quase dona da narrativa. Geada virou figurante raro, desses que a gente quase esquece o papel.
No fim, março se despede deixando mais perguntas que respostas. Mas talvez seja isso mesmo: viver por aqui é aprender a ler o céu, ouvir o mundo e, ainda assim, sair de casa com guarda-chuva, fé e uma certa dose de teimosia.

