
Com muito agrado recebo convite para conversar com professores e alunos sobre ler e escrever. Vou muito faceira. Afinal, sou do ramo. Desde criança consumi horas metida com livros ou passei muito do meu tempo alinhavando palavras pelos cadernos da vida.
Bom, então olhemos para a nossa matéria: ler e escrever.
– E quando as crianças não gostam de ler?
Como regra, acho que é difícil alguém não gostar. Mais comum é não ter chance de descobrir como/o que a pessoa gosta de ler. Da mesma maneira que as pessoas não sabem gostar de Chopin, não sabem que podem gostar de Gaudí, não sabem gostar de escargot, não sabem alugar um carro em Milão. Faltam oportunidades, falta traquejo, falta vivência.
É muito comum termos dificuldade para ajudar a gostar da leitura. Especialmente porque somos desastrados em outro quesito: não sabemos lidar bem com a curiosidade – que é a fonte do interesse que leva para a leitura, para as viagens e para os saberes de todos os tipos, e para a escrita também. Curiosidade, na nossa cultura, pode estar associada com transgressão e com rebeldia – vide o caso de Adão e Eva e a perda do paraíso.
Além disso, gastamos tempo demais fazendo ler obras tradicionais, como se somente elas fossem importantes. Temos medo de cair na vida. Isto é, medo daquilo que é popular e é novo. Parece custoso relacionar passado e presente. Aí, ou ficamos escorados nos fósseis ou afundamos na vulgaridade dos best-sellers.
Ninguém aprende a poupar, se nunca vê a cor do dinheiro. Ninguém aprende que ler é um gosto, se não tem livros por perto. Daí que uma das principais atribuições da escola e da comunidade escolar é
oferecer bibliotecas bem equipadas, em permanente renovação. Daí que um dos direitos principais das crianças é ser obrigadas a ler (quando não gostam espontaneamente de ler). Não se assuste com a frase. Todo mundo sabe que, às vezes, é preciso fazer engolir um remédio. A escola – como a vida – não é parque de diversões. Um empurrão pode ser indispensável para o salto que fará toda a diferença.
Tendo oportunidade, quase todo mundo acaba gostando de ler. Até mesmo aqueles que não concordam com Jorge Luis Borges, que disse uma vez: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.”

