
Vou botar o pé na estrada e enfrentar outras paisagens durante as próximas semanas. Quem vai pro ar perde o lugar – esta é a sinuca que tento resolver. Nada animador isso de arriscar o emprego aqui na casa… Mas fazer o quê?
Primeiro passo na viagem: arrumar a mala.
Para organizar a bagagem você convoca a cabeça e deixa o coração em repouso. Entendido? Só marajás das Arábias têm permissão de andar por aí com seus 17 baús e 18 servos. Para nosotros a realidade é pungente. Convém não esquecer que menos é mais, menos é mais, menos é mais…
Chegar nos parentes com algo além de mala magrinha pode azedar o ambiente de saída. É erro brutal deixar a impressão de querer acampar ali para sempre.
Agora, se a opção é literalmente acampar, malas extra são um desastre também. Em barraca, ou tem lugar para as malas ou para deitar a cabeça. O que você vai preferir? Já nos aeroportos, o passageiro esquecido de que só dispõe de duas mãos para o serviço depuxar-empurrar-carregar-mostrar documentos está encrencado de vez.
Sucede que nesta hora das malas, um dos enganos frequentes é confundir a mala com o armário da nossa casa. Atenção! Melhor arquivar a esperança de abrir a mala de manhã e ali, na hora, decidir o quê combina com qual peça, o que vai bem com a sandália descolada, etc.
Duas calças; três mangas curtas; duas mangas compridas, mais um casaco, eis a fórmula que resolvi patentear como kit de viagem adequado. Preocupação de turista é não passar frio nem calor. Ninguém espera glamour nos trajes do viajante. Glamurosa deve ser a paisagem. Melhor não confundir as coisas. Turista tem alvará para andar desgrenhado, amassado e até com um pingo de gordura tatuado na camisa.
Nem seria preciso dizer, mas lá vai: o objetivo da viagem não é tirar fotos cada dia com uma roupa diferente. Se fosse, seria mais cômodo contratar um bom fotógrafo para fazer um book no capricho, contando com a vantagem de ter à mão um guarda-roupa inteiro.
Em viagem nada é tão importante quanto aproveitar a viagem (não será a mesma coisa também na vida?) Por isso mesmo, que a gente não fique refém da bagagem. Que a gente não perca a ocasião de curtir o caminho, exatamente por estar soterrado em baixo de pesos diversos. Sejam eles bolsas, sacolas, mochilas ou os entulhos, costumes e modas que nós arrastamos – em geral iludidos de que eles podem nos tornam belos e felizes. Os mesmos que, no frigir dos ovos, não fazem uma pivica de diferença?

