
O calendário é disciplinado. Por mais que eu me contrarie, os critérios astronômicos já nos alertaram para a data em que o verão acaba. Afinal, cumpriu sua tabela, assinou o ponto e entregou o turno ao outono. Mas aqui no Sul, o calor não tem essa formalidade toda. Ele se espalha pelas ruas, se encosta nas paredes e fica ali, como visita que perdeu o relógio. Este ano, pelo jeito, vai fazer hora extra. O tal do veranico se antecipa como quem diz: “calma, ainda não acabou”. Eu nem tive folga para ir ao litoral, alugar casa ou filar um quartinho na casa de meus tios. Sim, eles surpreendentemente, gostam de minhas visitas.
Minha parceira de veraneios tentou me consolar com a lógica. “Se continua quente, também segue a rotina chata”. Ou seja, evitamos, desta vez, o banho rápido, porque a água não é infinita, especialmente em balneários, por mais ares de paraíso que nos entreguem. Ao mesmo tempo, a areia, insistente, tenta conquistar o banheiro centímetro por centímetro. Alguém sempre precisa lembrar que a toalha não foi feita para viver no chão. Pequenas regras domésticas que, no fundo, são o preço da convivência, especialmente na condição de hóspede.
Aliás, sempre fui muito cuidadoso com esses detalhes. Capricho na dobra dos lençóis e limpeza do quarto e ainda me transformo em chef de cozinha. Os frutos do mar assados, em caldos ou fritos, viram meu cartão postal. Tenho certeza de que sentirão saudades. A intimidade familiar é generosa, mas gosta de reciprocidade: um pouco de atenção aqui, um pouco de cuidado ali.
Com o passar dos anos aprendi que a casa de praia nunca é só um imóvel. Ela funciona como um pequeno cofre de memórias. Guarda risadas, cochilos depois do almoço, discussões sobre quem esqueceu de comprar pão e aquele silêncio preguiçoso das tardes quentes. E mesmo quando o calendário anuncia o fim do verão, sempre parece que alguma coisa dele ficou por ali, escondida entre o cheiro de maresia e o barulho distante das ondas.

