
Tem dias em que a verdade acorda cedo, toma café preto e fica sentada na varanda, esperando ser chamada. Mas quase nunca é. Quem levanta primeiro, com disposição de atleta olímpico, é a mentira — penteada, perfumada e cheia de argumentos.
Lembrei disso ao ler a frase do velho Dostoiévski, esse russo que parecia entender da alma humana como quem entende de previsão do tempo: olhando para o céu e acertando a tempestade. Ele dizia que a mentira é o único privilégio do homem sobre os outros animais.
E, pensando bem, faz sentido. Nunca vi um cachorro inventar que não comeu o chinelo. Ele até tenta disfarçar, evita contato visual, mas não sustenta narrativa. Falta-lhe o talento.
O ser humano, não. O ser humano constrói a mentira como quem levanta uma casa: escolhe as palavras, ajusta o tom, coloca uma emoção aqui, outra ali. Às vezes, acredita tanto na própria versão que passa a morar dentro dela. E aí já não é mais uma casa — é um condomínio fechado, com direito a porteiro e tudo.
Outro dia, no mercado, ouvi um sujeito dizer ao caixa que tinha esquecido a carteira. A mão dele tremia menos que as folhas no outono. Era mentira com acabamento de primeira linha. Talvez fosse verdade, claro, mas a performance denunciava um certo ensaio prévio. Fiquei imaginando se aquilo era necessidade ou apenas o velho prazer humano de testar os limites da tolerância e empatia humanas.
Porque a mentira também tem esse lado meio lúdico. A criança inventa amigo invisível e ninguém chama de mentirosa — chamam de criativa. Adulto faz o mesmo, mas troca o amigo por uma versão melhorada de si mesmo. Um currículo mais vistoso, uma história um pouco mais heroica, um “foi quase” que vira “foi sim”. Quem acompanha o noticiário percebe essa rotina, inclusive, entre grandes lideranças.
No fundo, mentir talvez seja nossa tentativa mais artesanal de editar a vida. Como quem pega um texto torto e resolve dar uma polida antes de mostrar ao mundo. O problema é que, diferente do papel, a realidade costuma guardar rascunhos. E aí, vez ou outra, a verdade — aquela que estava na varanda — resolve entrar sem bater. Não faz escândalo, não grita. Só se senta no meio da sala e fica ali, olhando. E não há argumento, nem narrativa bem construída, que consiga expulsá-la.
Talvez os animais sejam mais sábios do que pensamos. Não mentem, é verdade. Mas também não precisam sustentar versões. Vivem sem esse peso de edição constante. Nós, com nosso privilégio, acabamos acumulando histórias demais — algumas belas, outras nem tanto. No fim das contas, mentir é humano. Mas conviver com a própria mentira… isso já exige uma coragem que nem todo mundo tem. E a verdade, paciente como sempre, segue na varanda. Esperando.

