
Às vezes acordo meio estranho – como se tivesse incorporado um mix de roqueiro raiz e filósofo – quase um Nietzsche, aquele admirável filósofo alemão que li na juventude. Sim, sou antigo, eu cursei o “clássico”, nos anos 70. E aí, sirvo um café e desperto para o mundo real. A disposição por desvendar os próprios mistérios requer uma coragem que poucas pessoas possuem durante a jornada da vida. A psicanálise está aí para isso. Mas quem acredita?
Não adianta buscar respostas ao nosso redor se não olharmos fixamente para nosso interior. É como ir ao supermercado sem examinar a despensa. Algo virá em dobro enquanto outros itens essenciais faltarão. Em sua fase mística, o beatle George Harrison escreveu versos que me alertaram, isso lá nos anos 60. “Sem sair porta afora, eu posso saber de todas as coisas mundanas, sem espiar pela janela, eu posso perceber os caminhos para o céu”, em minha tradução liberal para The Inner Light.
Quando você se conhece, ganha instrumentos para enfrentar a rudeza existencial. Desde o vizinho irascível que implica com teu cãozinho até o colega de trabalho que te elege como vítima de inveja na disputa por cargos, ou prestígio. Foi assim que superei a maioria das adversidades cotidianas. Desde o colégio, quando analisava os prováveis “adversários” e os cercava com tolerância e observação. O valentão da turma, sempre tinha um ponto frágil e aí se atacava. Sem socos, mas com diálogo.
Mas percebo uma geração de lideranças mundiais focadas em seu próprio umbigo. E temo pela juventude que sobreviverá a essa enxurrada de verbalizações erráticas entre armas engatilhadas contra a paz. Eu fico com o outro beatle, John Lennon, autor de um belo mantra pacifista que diz mais ou menos assim: “Todo mundo está falando sobre Bagismo, Shagismo, Dragismo, Loucura, Ragismo, Tabagismo. Esse “ismo”, aquele ”ismo” e tudo que estamos dizendo é: dê uma chance à paz”.
O mundo está deixando de criar seres admiráveis aos olhos da sensatez. Ao retirar seus armamentos pesados dos quartéis, ameaça o sonho de muitos que apenas queriam uma vida minimamente digna. E nas ruas, uma multidão fantasiada de gente busca soluções imediatas para suas vidas. A maioria não olha para frente, mas se fixa em celulares onde tudo pode fantasiar uma realidade possível.
Falta espaço para um simples bate-papo. A colunista da Folha de São Paulo, antropóloga Miriam Goldenberg escreveu: “Fico triste ao constatar que as pessoas têm cada vez menos respeito e paciência para enxergar e escutar os outros, especialmente os mais velhos”. Uma das respostas a tudo isso que vemos hoje, quem sabe, não está aí?

