Para o jovem Rafael Roberto Bertoldo, 32 anos, nascido em Capitão, mas hoje vivendo nos Alpes Franceses, o desejo de morar em outro país se manifestou quando ainda era criança. Na adolescência, na medida que planejava a experiência de viver fora do Brasil, foi entendendo das possibilidades e dificuldades de tornar real tal vontade.
A mãe Inelvi, que reside no Centro do município de Capitão, viu o filho colocar a bandeira da Itália na parede do quarto assim que começou a ir atrás da cidadania italiana. “Ele entendeu que a cidadania abriria as portas para viver em outro país. O símbolo não o deixava desanimar ou mesmo desistir pelo caminho tão cheio de dificuldades. O mapa-múndi, pintado na parede do quarto, o ajudava a lembrar, tinha sede de conhecer muito mais do que os limites do lugar onde havia nascido e crescido, existia mais para ver e conhecer”, lembrou a mãe.
Tal sede, certamente tenha herdado dela que, aos 16 anos saiu do interior de Capitão, para trabalhar em Farroupilha como auxiliar de cozinha num restaurante. O entusiasmo, o apoio dela, fizeram com que tivesse atitude. Era preciso fazer acontecer.
Em 2019, em meio às buscas, Rafael descobriu que tinha direito de reivindicar a cidadania italiana. Ela daria direito de morar e viver em qualquer país da União Europeia, além de oportunidades de imigração para outros países fora do bloco. Iniciou a busca por registros familiares necessários para o processo e em dezembro de 2020, em posse de informações e documentos, procurou um advogado especializado que protocolou o pedido de cidadania.
Em maio de 2022, antes mesmo da conclusão do processo, viajou para a França com um visto de trabalho, inicialmente com o plano de permanecer por um ano. Desembarcou no país sem saber falar francês, mas com uma vontade enorme de aprender e também imergir na cultura. Em maio de 2023, retornou ao Brasil, permaneceu por alguns meses com a família e em setembro do mesmo ano, viajou à Itália para emissão da carteira de identidade italiana e do passaporte. A carteira de identidade ficou pronta em um dia e o passaporte, em quatro, ao tê-los em mãos, retornou à França para morar.
Hoje, ao olhar para trás, lembra que quando a oportunidade de sair do Brasil se apresentou, não hesitou. Embora ciente das dificuldades que teria que enfrentar, acreditava que a experiência poderia ser realizadora.
Sempre houve muito planejamento, pra tudo. Por meio de pesquisas na internet, conseguiu lugar pra morar e trabalhar, saiu do Brasil já com um quarto alugado em Montpellier, sul da França. Para conseguir se manter, enquanto não encontrava algo fixo, fez “bicos” num restaurante mesmo sem entender nada do que os clientes perguntavam, lembra ter sido uma experiência bem frustrante. “Dividi apartamento com mais pessoas e passava boa parte do tempo livre na sacada, conversando com um dos moradores, deste modo me forçava a falar o pouco de francês que sabia e todo dia, aprendia algo. O primeiro emprego fixo, foi como auxiliar de cozinha onde tive grandes avanços no idioma: o chefe de cozinha era muito tagarela, eu prestava bastante atenção em tudo o que ele falava e gradativamente fui aumentando o vocabulário.”
Perguntado sobre a primeira lembrança em outro país, foi enfático: a cidade de Paris. “Aterrizei e permaneci duas noites com o intuito de conhecer a cidade, que é encantadora. Estendi uma toalha num jardim em frente à torre Eiffel, e como nos filmes, fiz um piquenique, admirei a beleza não só da torre, mas de todo entorno, ainda tentando assimilar o que estava acontecendo. Na sequência, voei para Montpellier, não estava conseguindo trabalho fixo na cidade e a barreira do idioma me fez olhar sites de emprego na busca por vagas em outras cidades e logo que consegui uma, saí de Montpellier e mudei para Chamonix-Mont-Blanc, já com emprego garantido.”
A partir de então as coisas foram acontecendo, surgiu nova oportunidade de trabalho em Tignes, uma estação de Esqui localizada nos Alpes, onde era encarregado da limpeza e arrumação dos quartos do hotel. Com dedicação e foco, evoluiu muito no idioma e logo foi convidado à trabalhar na recepção do hotel. Em 2024, conseguiu uma vaga como Agente de Reservas multilíngue, em Chamonix novamente, dessa vez no maior hotel da cidade e um dos maiores da região. Um desafio e tanto, e é onde Rafael se encontra atualmente.
Sua rotina no trabalho: atender o telefone e responder e-mails, em contato com clientes e agências de viagens do mundo todo, interessados em reservas no hotel. Rafael fala fluentemente vários idiomas e lembra: “no começo essa mistura me causava muito cansaço mental, coisa que faz parte, mas hoje posso dizer que tenho orgulho de dominar outros idiomas. Poder trabalhar em outro país com algo que eu gosto de fazer, estar vivendo o que antes parecia um sonho impossível, conhecer a Itália, República Tcheca, Inglaterra, Espanha, Suíça, Hungria, Eslováquia, Áustria, Romênia, Grécia, Irlanda, Estados Unidos, França…”
Muitas vezes, caminhando por ruas desconhecidas, lembra de se pegar pensando: “Estou realmente aqui! Conheci tantas pessoas, provei diferentes culinárias e aprendi tanto sobre a história de cada lugar, um sonho de infância, hoje transformado em realidade”, lembrou.
“Essa mudança de país me ensinou muito sobre minha própria resiliência e capacidade de adaptação, essa experiência fortaleceu ainda mais a minha fé em Deus. A saudade da família é algo que a gente aprende a conviver e não tem um só dia que eu não penso neles, ligo toda semana pra ver como estão as coisas por lá. Isso ajuda a matar a saudade, sinto falta de cada um deles, da comida e do nosso ‘jeito de ser’.
Tenho a consciência de estar vivendo um sonho, mas também sei que o Brasil sempre será o meu país, a minha verdadeira casa, para onde, em algum momento, certamente retornarei. Neste Dia das Mães, mais um longe de casa, o abraço especial vai para a minha mãe INELVI, amo ela e tenho o maior orgulho da sua história, sua coragem, e também por me apoiar e permitir que eu voasse para longe. Meu pensamento, está sempre com ela e com nossa família, em Capitão”.



