
Na semana passada, um vídeo viralizou nas redes sociais ao mostrar a reação de uma mulher logo após voltar da sedação de um procedimento cirúrgico. Ainda desorientada, ela olhou para o próprio marido como se o estivesse conhecendo naquele hospital.
“Lindo ele”, comentou para a equipe médica, encantada como quem descobriu um galã perdido no corredor da enfermaria. Segundo o anestesiologista George Freire, do Hospital Israelita de São Paulo, algumas medicações usadas na sedação agem diretamente no sistema nervoso central e podem provocar amnésia temporária.
A pessoa esquece o que falou, fica desinibida e se comporta como alguém sob efeito de álcool. Em outras palavras: perde o filtro social e entrega a sinceridade em estado bruto.
Fiquei imaginando se a situação fosse oposta e a esposa reagisse de forma menos romântica: “Quem é esse feioso?” A cena passaria rapidamente da diversão ao constrangimento familiar.
Porque, depois da anestesia, algumas pessoas ficam perigosamente sinceras. Falam coisas sem nexo, revelam pensamentos improváveis e embarcam numa espécie de carnaval químico cerebral. Talvez os hospitais devessem avisar os familiares: “Tudo o que for dito no pós-anestésico não poderá ser usado contra o paciente.”
Vivi algo semelhante na única vez em que precisei enfrentar uma cirurgia. De volta ao quarto, algumas horas depois do procedimento, tentei saltar da cama acreditando que o paciente ao lado havia caído no chão. Em seguida, olhei para o teto e vi tudo colorido, como um quadro psicodélico dos anos 70. Uma experiência lisérgica hospitalar sem precisar recorrer ao velho LSD.
O médico explica que, além da perda momentânea de memória, outras reações possíveis incluem sonolência, tontura, fala desconexa, alterações emocionais e comportamentos espontâneos. Alguns riem. Outros choram. Há quem faça as duas coisas alternadamente, como novela no capítulo final.
Lembro que gargalhei quando uma atendente apareceu com um prato de sopa. Qual era a graça? Nenhuma. Nem gosto de sopa. Hoje entendo: eu estava “viajando”, como dizem os veteranos das experiências alucinógenas. No caso do vídeo viral, a mulher havia sido submetida à sedação para realizar uma punção na medula.
Os medicamentos agem principalmente na região pré-frontal do córtex cerebral, responsável pelo julgamento, comportamento e pelos chamados “freios inibitórios”. O autocontrole sai de férias por alguns minutos. Resultado: a pessoa fala sem pensar, mistura memórias, emoções e impulsos. E aí pode acabar declarando amor ou antipatia para a pessoa errada. Sedado ou não, continua pegando mal.

