
Ela passou correndo pela praça de alimentação do shopping. Carregava algumas sacolas e uma sombrinha. Olhou para os lados, aflita. Em seguida, entrou na fila de um lanche. Sorri quando deixou cair a carteira, espalhando cartões de crédito pelo chão. Uma senhora prontamente a ajudou. Tudo recolhido e ajeitado, vi surgir em seu rosto uma expressão de alívio.
As duas iniciaram uma conversa amistosa e, depois de alguns minutos, sentaram-se numa mesa próxima à minha. Aos poucos, fui entendendo a pressa, a agitação e, principalmente, aquele olhar de quem parecia ter escapado de alguma tormenta.
Abri o celular e me preparava para entrar em um grupo de amigos no WhatsApp quando ela exclamou, como se desejasse que todos ao redor a ouvissem:
— Homem mau-caráter que não respeita a mulher deve ser castigado pela lei.
Olhou para mim em busca de aprovação. Concordei com um discreto aceno de cabeça.
A brutalidade que frequentemente ocupa as manchetes merece punição rigorosa. Apenas em nosso estado, mais de 35 casos de feminicídio foram registrados neste ano.
Logo percebi que ela se referia à história da própria mãe. Viúva, ao tentar reconstruir a vida afetiva, havia encontrado um sujeito difícil, ciumento e agressivo.
Agora estava sozinha outra vez, mas agradecida por ter sobrevivido. “Mas ele já tem outra”, disse a jovem. As duas me olharam. Meio sem jeito, respondi com o velho símbolo hippie da paz feito com os dedos e, sem perceber, acabei entrando na conversa.
Violência não combina com nenhuma relação que se pretenda amorosa. Se as mulheres gostam de discutir a relação, que haja discussão. Mas no diálogo. E, se ao final o resultado for um adeus, sejamos homens o suficiente para partir com dignidade.
Aos valentões sem escrúpulos, recordo a frase definitiva da canção “The End”, dos Beatles: “And in the end, the love you take is equal to the love you make.” No fim, o amor que você recebe é igual ao amor que você oferece. Mais simples, mais direto, impossível.

