
Na minha infância, o Dia dos Bobos — o 1º de abril — era levado muito a sério. Sério demais, diga-se. Não adiantava tentar escapar: sempre aparecia um mais criativo, ou mais maldoso mesmo, disposto a aplicar uma mentira caprichada. Era quase um esporte.
Minha professora, lá no Colégio Fortaleza, em Rio Pardo, dizia que o melhor a fazer era entrar na brincadeira. Rir junto, devolver na mesma moeda. Conselho sábio, sem dúvida. Pena que eu não era talentoso o suficiente.
Uma vez inventei que tinha uma cobra na casa da vizinha. Não foi uma mentira, foi praticamente um desastre logístico. A mulher saiu gritando rua afora, em estado de histeria, e quando eu, sem graça, revelei que era só por causa do dia 1º de abril, levei uma bronca que até hoje ecoa. Descobri que nem toda mentira, deste dia, termina em gargalhada — algumas acabam em xingamento.
Antes da internet, quando a curiosidade morava em páginas grossas e cheirando a mofo, fui atrás de explicação numa enciclopédia. E ela me contou que essa tradição vem de longe, lá da França do século XVI. Em 1564, o rei Carlos IX da França decidiu mudar o início do ano de 1º de abril para 1º de janeiro.
Só que a notícia, naquela época, não corria — ela caminhava. E muita gente continuou comemorando o ano novo em abril, por costume ou desinformação. Viraram alvo fácil de piadas, convites para festas que não existiam e pequenas armadilhas sociais. Nasciam ali os “tolos de abril”.
Na França, chamavam de poisson d’avril — o peixe de abril — como se fossem fisgados por histórias inventadas. Uma imagem bonita, até: gente andando distraída e, de repente, puxada pela linha invisível da brincadeira.
A moda atravessou os oceanos. No Brasil imperial, por exemplo, um jornal mineiro chegou a publicar, em 1º de abril, a falsa notícia da morte de Dom Pedro I. Não era só pegadinha de quintal — era fake news com tipografia elegante.
Dizem que no Sul, com a influência alemã, também pegou o tal do Aprilscherz: mandar alguém fazer uma tarefa absurda, daquelas que só fazem sentido depois que a pessoa percebe que caiu no trote. Um tipo de humor que exige, no mínimo, boa vontade — e um pouco de espírito esportivo.
Mas os tempos andam meio ásperos. Ultimamente, as pessoas não têm rido com tanta facilidade. Talvez porque a realidade já anda pregando peças demais. Em ano de campanha política, então, tem promessa que soa como piada pronta — e nem sempre das boas.
Por isso, este ano, passo a vez. Deixo as mentiras para outro calendário. Porque, no fim das contas, tem coisa que não combina com brincadeira.
Voto, por exemplo, é coisa séria.

