
Soube que neste mês, nos dias 22, 23 e 24, Arroio do Meio será palco de uma daquelas gincanas que não cabem em adjetivos modestos. É considerada uma das maiores do estado — e não é só pelo tamanho, mas pelo que provoca: integração, surgimento de lideranças e uma espécie de energia coletiva que transforma a cidade em tabuleiro.
Ao ouvir isso, voltei aos anos 80 e à Gincana do Centenário, em Porto Alegre. Eu era um participante indireto, mas o suficiente para sentir o pulso da coisa. Foram três dias de correria que praticamente suspenderam a rotina da cidade. Havia um clima de caça ao tesouro no ar — e, de certo modo, era exatamente isso.
Porque uma gincana é mais do que tarefas: é um laboratório social em alta velocidade. Sai um desafio, e de repente você precisa do outro. Conversa com quem não via há anos, retoma amizades, cria pontes improváveis. É ali, no improviso, que a convivência se aprende na marra — e também no riso.
A diversão, aliás, não tem nada de distraída. Exige atenção, estratégia e uma boa dose de astúcia. Nos meus tempos de guri, equipes mantinham rádios ligados o tempo inteiro — um ouvido na tarefa, outro na possibilidade de alguém estar escutando. Havia sempre o risco de espiões, infiltrados, gente pescando informação como quem joga rede em rio cheio.
E tinha ainda os colecionadores — personagens quase míticos. Guardiões de peças raras que, de repente, viravam a chave de uma tarefa. Convencê-los a emprestar algo exigia mais do que argumento: era preciso lábia, confiança e a promessa silenciosa de devolução intacta, como quem pega um livro sagrado emprestado.
Mas, acima de tudo, existia um pacto invisível: o de manter o bom nível. Cordialidade e respeito não eram opcionais, eram condição de sobrevivência. Lembro do meu pai interferindo para acalmar ânimos em discussões mais acaloradas. No fim, como costuma acontecer nas boas histórias, todos acabavam rindo juntos. E as memórias — essas — ficavam ecoando por dias, semanas, anos.
Talvez seja isso que faz da gincana algo tão poderoso. Num mundo onde a vida já parece uma disputa constante, ali a competição ganha outro sentido. O prêmio maior não é o troféu. É encontro e experiência compartilhada. É a prova de que competir também é uma forma de se aproximar. Porque, no fundo, a melhor conquista é simples: brincar juntos.

