
Minha mãe estudou pouco. Era baixinha, de fala mansa, empenhada diuturnamente no bem-estar da família. Neste esforço, era o que se chama como legítimo algodão entre cristais, tentando, sempre, contemporizar atritos entre meu pai – um alemão turrão e de poucas palavras – e os filhos – eu e minha irmã um pouco mais velha.
Dona Gerti Jasper, nascida Kirst, era a legítima integrante da legião antigamente denominada ser “do lar”. A casa era sua rotina. Não importava o clima, a idade ou as rasteiras que a vida reservou a esta guria nascida no bairro Bela Vista, em Arroio do Meio.
Com mais de 30 anos de casamento, dona Gerti viu-se viúva do velho Giba que, aos 52 anos, morreu de infarto, em Tramandaí, num longínquo 31 de janeiro. Ambos haviam chegado à espaçosa casa de veraneio da família, depois de terem espalhado “esperas” nas lagoas perto do Parque Osório, em busca de traíras.
Até hoje minha mãe é exemplo do que mordernamente se chama “resiliência”. Ao contrário do que imaginávamos, ela não esmoreceu após a morte do meu pai. Passou a usar seus dotes culinários para preparar doces e salgados para festas e aniversários. Foi uma espécie de terapia.
Além do meu pai, dona Gerti perdeu os pais – Bruno e Wilma Kirst -, e o filho, Roberto, com pouco mais de 30 anos. Foram perdas dolorosas que envolviam entes queridos que ela com frequência citava em histórias e causos.
Nem todas as perdas fizeram minha
mãe perder a fé na vida e nas pessoas
Aos 82 anos, chegou a hora dela partir, descansar, de maneira calma, tranquila, reflexo de sua trajetória terrena. Foram longos 10 anos sobrevivendo com apenas um pulmão. Neste período ela ralizou um sonho: viajar bastante ao lado da filha e das amigas.
Nunca escondeu que gostava de uma cervejinha gelada e a cada visita que fazia, logo ao chegar, ela me puxava para o lado e sussurrava:
– Tô louca pra comer um churrasco. Até já comprei carne e bebidas, mas se tu estiver cansado, eu faço no forno – segredava no meu ouvido com ar de chantagem maternal.
Com a chegada do Dia das Mães, a imagem e o exemplo da dona Gerti estão cada vez mais presentes na minha vida. Dela aprendi a conciliar, perdoar, buscar o entendimento e deixar de lado o orgulho que tanto prejudica as relações humanas atualmente.
Sempre que passo diante do apartamento que ela ocupou, no edifício São Francisco, no centro da cidade, recordações inundam meu coração e enchem os olhos de lágrimas. Mais do que nin-guém, ela merece o título de “mãe modelo”. Afinal, nem todas as armadilhas que a vida reservou a ela – em forma de perdas – foram capazes de fazê-la perder a fé na vida e nas pessoas.


