
A “turma de cima” era unida e mais abastada. Já nossos vizinhos eram bem mais pobres do que nós. Todo mundo tinha que trabalhar na infância para arrumar alguns trocados. Eu cheguei a trabalhar em três empregos sucessivos como entregador de leite.
Era preciso levantar de madrugada e caminhar descalço sobre a geada, pois impossível equilibrar-se sobre tamancos molhados. Com três “bules” em cada mão, era preciso andar rápido pois às 8h começavam as aulas no Grupo Escolar Guia Lopes. À tarde o trabalho se repetia.
Na adolescência trabalhei como “armador de bolão”, cobrador de contas e de clubes e caixeiro de bodega. Com a tarde toda e poucos clientes, aproveitei para ler toda a biblioteca da prefeitura.
No grupo escolar as provas vinham prontas da Secretaria de Educação. Se o professor não tivesse passado toda a matéria, era reprovação geral. Lembro que na quinta série fui o terceiro colocado… e último, pois só passaram três.
Para ingressar no ginásio era preciso passar no exame de admissão: uma espécie de vestibular. Lembro que meu irmão mais novo foi reprovado no Grupo Escolar e aprovado no exame de admissão. Tiveram que mudar o resultado do curso primário.
No ginásio há momentos que ficam para sempre na memória.
Certa vez um menino da turma de cima, logo após o recreio, colocou uma bola de piche no meu banco, estragando a única calça que eu tinha para ir à escola. Queixei-me à diretora mas ela não deu bola. Não sei como minha mãe conseguiu limpá-la.
Numa ocasião foi organizada uma excursão à Capital para visitar, entre outros, a fábrica da Coca-Cola que, na época, era ponto turístico. Foi contratado o ônibus de Sebaldo Rech, da Linha Quilombo. Aliás, o nome “Quilombo Especial” havia trazido sérios problemas para as meninas numa viagem a Rivera, pois em espanhol pode significar “bordel”.
Na saída para a Capital estava por ali um menino que não estava inscrito. Ao chegarmos ao destino, eis que desembarca misteriosamente do ônibus, tendo viajado no bagageiro. Perguntei-lhe se não tinha sufocado e me disse que havia colocado uma varinha, impedindo que a porta se fechasse totalmente.
Esse colega era muito alegre e sempre tinha uma tirada inteligente. Às vezes as irmãs o repreendiam por alguma observação engraçada ou por levantar-se da classe que sempre era a última da fila.
Numa ocasião a irmã admoestou-o severamente dizendo que ficasse quieto na classe, que no dia anterior já havia perdido a paciência com ele. Quando voltou-se novamente do quadro viu que ele procurava algo por baixo dos bancos. Questionado pela freira, o que estava fazendo, perguntou se não tinha sido por ali que ela havia perdido…
Ela teve que entregar os pontos.

