Eu era pouco mais que uma menina, quando comecei a dar aulas. Conseguir um posto de trabalho foi a glória. O emprego era precioso. Ajudava a ir achando um lugar no mundo e, no fim do mês, o ordenado permitia continuar com os estudos.
As primeiras “vítimas” foram crianças que andavam lá pelos seus dez a doze anos. Impossível esquecer aquela turma. Se pensar um pouco, devem voltar os nomes e os rostos de um por um, em que pesem todos os anos que passaram.
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Aquele foi um tempo memorável. No ardor dos verdes anos, eu achava que conseguia salvar a pátria. E dá-le salvar a turma à minha frente. Enfiava goela abaixo tudo o que podia. As crianças que se virassem para aprender a tabuada, para digerir noções de história e geografia, para acertar a conjugação dos verbos, etc. Por bem ou por mal. A cobrança era dureza, tinha que mostrar serviço. Pode ser que aquela severidade ainda volte nos pesadelos dos ex-alunos, pode ser.
Ficamos juntos um ano inteiro. Depois, a vida foi levando cada um para o seu lado – como acontece sempre.
Da experiência, só tenho certeza de uma coisa: aprendi muito mais do que ensinei.
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Décadas depois, passei a ver com boa frequência um dos guris daquela antiga turma – exatamente o que mais trabalho deu… Ocasionalmente a gente conversava. Até que um dia…
Até que um dia, quando nos encontramos, o guri botou a mão no bolso e de lá tirou a sua carteira de dinheiro. Opa! De duas uma. Ou eu ia ganhar uma gorjeta pelos esforços despendidos no passado. Ou… ele estaria cobrando multa pelos tormentos que atravessou nas minhas mãos.
Sabe o quê? Ele sacou de dentro da carteira um coraçãozinho recortado em papel de cor vermelha escura. Um coraçãozinho que abria em duas partes, ainda com a fitinha e o nó que juntava as faces. Dentro, na minha letra de guria, estava lá o nome dele, uma mensagenzinha bem singela, a assinatura e o ano, 1971. No duro!
Não é que o guri tinha guardado o coraçãozinho de papel por quatro décadas! Você consegue imaginar uma coisa assim?
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Se um trem tivesse me passado em cima, não seria maior o impacto.

