
Viajei aos Estados Unidos. Foi a chance de passar um desengripante na comunicação… pois a língua já ia ficando meio enferrujada… Também foi uma oportunidade boa para espiar a vida a partir de outra posição geográfica.
Continuo meio de ressaca. Sucede que viajar deixa sempre um certo desconforto. Quero dizer, dá um solavanco ver que as pessoas vivem de jeitos próprios nos diferentes pontos cardeais. Fica claro que as coisas que nos ralam de preocupação, perdem todo o cabimento fora do contexto. As vaidades viram pó; os medos trocam de figura e as saudades também mudam o endereço.
Aconteceu que num dos dias da viagem eu fosse a uma loja Walmart para resolver algumas encomendas. Como se sabe, Walmart é uma grande rede de lojas de departamentos. Caracteriza-se pelos preços baixos e pela clientela disposta a pagar pouco. As lojas são enormes e, em geral, ficam abertas 24 horas nos 7 dias da semana. Ao que parece, tudo se vende ali. A lista vai de pneus a ferragens, passando por brinquedos, vestuário, eletrônicos, farmácia, utilidades domésticas e também gêneros alimentícios. Para este fim, não é um supermercado como os outros. O foco do Walmart são produtos menos perecíveis. É o caso de congelados, pães com extensa validade, bebidas, laranjas, tomates longa-vida, coisas assim.
A loja em que entrei era gigantesca, seriam necessárias horas para percorrer as prateleiras todas. Uma multidão circulava pelos corredores. Na fila junto ao caixa, fui surpreendida pela quantidade de gente com o carrinho cheio de comida. Embalagens atraentes contendo frango congelado e já empanado, por exemplo. Porções de carne semi-pronta, capaz de ser preparada em coisa de minutos. Pães que podem ficar no armário da cozinha durante meio ano. Latas de conservas com feijão, sopas, massas, risotos, em porções feitas para despejar no prato e aquecer no micro-ondas. Leite em pó, ovo em pó, bolo em pó, batata em pó, tempero em pó…
Minha nossa! Me baixou a ideia de que a modernidade está se alimentando de um tipo de comida de quem se retirou a alma. Comida que se poderia levar em viagem interplanetária e voltar com igual sabor (qualquer que seja o sabor que tem…)
Tudo isso fez brotar uma saudade funda. Saudade da operação de descascar batatas, do ato de colher manjericão e usar como tempero fresco ou de apanhar umas laranjas ali no pé. Fiquei sentindo falta de misturar farinha e ovos e abrir a massa com o rolo sobre a mesa da cozinha, ou então de preparar bolos e biscoitos e sentir a casa tomada do perfume que vem do forno…
A mente foi andando para mais longe. Lembrei do tempo de em que era comum manter alguns frangos ciscando no quintal, uma galinhazinha para os ovos, e me dei conta de que isso tudo poderia parecer coisa de pobre, em vez de ser interpretado como de fato é. Ou seja, um luxo! Comida de verdade – como diz a Rita Lobo.
E ter comida de verdade se tornou um ideal super moderno – contra todas as provas dadas pela clientela do Walmart. Comer comida de verdade passou a ser a condição buscada não só pelas pessoas de altas posses, mas, principalmente, por aquelas que percebem o valor de se manter tão perto da natureza quanto ainda for possível.

