Uma conversa com o Paulo Neumann rendeu bem na última semana. Fazia um calor tremendo e todo mundo se queixava. A temperatura rondava os 40 graus e volta e meia a energia tinha seu fornecimento interrompido. Foi aí que o Paulo puxou recordações do tempo antigo. Hoje em dia tudo pode parecer muito engraçado, mas na hora não era nada disso. A gente viveu aquilo a sério.
§§§
Era o tempo em que ninguém não ouvira nem falar em ar condicionado. Nem nos filmes, nem nos livros que nós líamos havia a sugestão de que se podia regular a temperatura ambiente. Nós acreditávamos que o verão fazia sofrer com o calor e que o inverno judiava com o frio. A vida era assim e ponto. Nem ventilador se tinha em casa. O recurso era abrir portas e janelas e deixar “puxar” um vento – como se dizia. Havia os leques, um instrumento de uso das mulheres. Homem não se abanava; homem aguentava. Só que o ventinho produzido não compensava o esforço de movimentar o leque. Fora os leques, nada. Nem água gelada, que as geladeiras ainda não tinham se tornado populares.
§§§
As noites de verão da nossa infância são inesquecíveis. Ao calor se somavam os mosquitos. Os mosquitos eram nossa infalível companhia. Quem conheceu o zumbido deles jamais esquece. Aí vinha um dilema de impossível solução. A gente atravessava a noite suando debaixo do lençol ou ardendo das picadas dos mosquitos. Preferir o quê?
Algumas táticas para enfrentar mosquitos existiam. Havia uma plaqueta verde com formato de espiral chamada Boa-Noite. Servia para esfumaçar o quarto. Infelizmente o Boa-Noite garantia pouca coisa. Primeiro, porque os mosquitos não davam muita bola; segundo, porque terminava antes de terminar a noite; terceiro, porque o cheiro e a fumaça colaboravam com o drama.
Também tinha a máquina de detefon – como chamávamos. A gente espalhava veneno com a máquina: futch, futch, futch. O resultado era igualmente duvidoso, com o agravante de o quarto ter de ficar fechado e nós, obrigados a compartilhar o veneno dos mosquitos.
§§§
Ou seja, quando alguém aí se queixar do calor, nossa geração tem muita, mas muita vantagem pra contar.

