A pergunta se impõe: será que finalmente o ano vai começar? Todo ano é a mesma coisa: “Tudo volta ao normal depois do Carnaval”, rima e é verdade. Mas há milhões de brasileiros que “ralam” o ano inteiro, raramente tiram férias, fazem do trabalho uma filosofia de vida.
O Brasil não precisa de mais trabalho. Precisa é de mais decência, ética, postura e vergonha na cara. De critérios na hora de votar e eleger pessoas comprometidas com o nosso futuro. Condenar Renan Calheiros, o Judas da hora, é fácil. Alguém já foi a Alagoas para convencer o povo a não votar no presidente do Senado? Trabalhei no Palácio Piratini, na Assembleia Legislativa e na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Sou filho de um ex-vereador do nosso município. Também fui assessor do nosso ex-prefeito Arnesto Dalpian e do então secretário da Educação do Estado, Bernardo de Souza. Por isso, talvez eu seja suspeito para cobrar certas posturas.
Estranho que tanta gente queira enforcar em praça pública uma legião de deputados, senadores, vereadores e prefeitos. Mas é bom lembrar que eles não “brotam” espontaneamente para se apropriar de recursos do contribuinte.
O deputado federal (e palhaço) Tiririca disse que não vai concorrer à reeleição, desanimado com o mandato. Reação idêntica teve o ex-jogador e craque Romário. Acredito na reação deles. A chegada ao Parlamento é um exercício contínuo de aprendizagem com circunstâncias surrealistas para “mortais comuns” acostumados a sobreviver cumprindo horários, tarefas e obedecer às chefias.
A falta de comprometimento se inicia no condomínio ou no bairro em que moramos. Sempre há problemas comuns: um vazamento na garagem, um bar que funciona até a madrugada perturbando o sono da vizinhança, uma lixeira enferrujada que pode despencar a qualquer momento. Mas ninguém, absolutamente ninguém se mobiliza, apenas reclama.
O síndico é visto como carrasco por cobrar, exigir e tomar decisões antipáticas. São raros os casos de solidariedade. Mas onde isso aconteceu se vê soluções práticas, conjuntas e de resultados animadores..
Na vida pública a solidão de quem administra é enorme. No auge do sucesso falta espaço para o puxa-saco. Mas um resquício de denúncia faz o mundo desabar. Não há clemência, nem direito a explicações públicas. Por isso há injustiças com pessoas que nem sempre agiram de má-fé.
Votar com critério, fiscalizar, cobrar atitudes e depois criticar decisões é exercer a cidadania na plenitude. Apenas falar mal em nada contribui. Infelizmente há poucos atrativos para entrar na política.
E isso abre largas avenidas para aproveitadores, vigaristas e malversadores do dinheiro público.

