Durante muito tempo acreditamos que o Rio Grande do Sul era uma espécie de reserva moral da nação. Mais ou menos assim: quando o pessoal dos demais estados da federação crescesse, eles seriam tão bons quanto nós. Isso não era segredo. Pelo contrário, o próprio hino se encarrega de proclamar. Nós – nossas façanhas – serviam de modelo a toda terra. Nós gaúchos éramos mais politizados; detínhamos o melhor padrão de educação; nossos profissionais tinham uma formação mais sólida; nossas instituições eram mais bem estruturadas; nossos serviços funcionavam melhor, etc., etc.
Que ninguém nos confundisse com os outros. Com os nordestinos, por exemplo. Esse era um pessoal que só queria sombra e água fresca, muita conversa e resultado duvidoso. Conosco era pão-pão-queijo-queijo. Tudo feito às claras, com a maior honestidade. Eficiência a toda a prova.
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Acima de tudo, acima de qualquer suspeita, o primeiro diferencial era o nosso caráter. Os outros estados não chegavam nem perto. Integridade, nota dez. Aqui os contratos só precisavam da garantia do fio do bigode: palavra dada = palavra cumprida. A honra em primeiro lugar. Antes morrer que perder o crédito.
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De repente, não sei bem quando, começaram a surgir manchas nesse céu azul. Apareceram falcatruas em eleições. Fraudes no serviço público: quem devia fiscalizar não fiscaliza; quem devia reclamar não reclama; quem devia cuidar do bem comum está cuidando do próprio bolso. Faltam estradas; faltam escolas; faltam equipamentos; faltam policiais. Os presídios são uma barbaridade. Faltam soluções novas. E faltam ideias. Liderança falta também.
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É por isso que ultimamente andamos meio cabreiros.
O Rio Grande não está onde pensávamos que estivesse. A produtividade das nossas lavouras evoluiu pouco. A administração tem de se modernizar em todos os setores. O sistema educacional grita por reformas. Aliás, quase tudo precisa de reforma, mas não há dinheiro nem coragem para reformar coisa nenhuma.
Aí a gente pergunta “e agora”?

