Parece que gostamos de contemplar o lado negativo da vida. Não fosse assim, será que os jornais dariam tanta notícia de desastre e de corrupção?
É só ligar a TV. Todo o santo dia acidentes, tornados, enchentes são despejados na sala de casa.
E, no que diz respeito à pátria amada, que fartura de novidades no ramo da velhacaria! Dá a impressão de que se rouba e se engana por tudo que é lado. Onde menos se espera, também lá há falcatruas, sim senhor. O mau exemplo vem de cima, vem de baixo, vem da direita e da esquerda.
Acho que é por isso que às vezes parece que falta chão debaixo dos pés.
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Pensando bem, talvez todos gostaríamos de ter notícias melhores. Esquecer tanta lambança. Trocar o medo de assalto pelo sossego. Parar de saber sobre desvios de dinheiro e ver que há responsabilidade para constatar que é possível confiar nas pessoas.
Quando se vê que isso é ilusão, pode bater uma ideia maluca: ir embora. Simplesmente, fazer a trouxa e ir cantar noutra freguesia. De preferência, mudar para um desses países mais sérios, do chamado primeiro mundo.
A parte mais avançada do planeta conseguiu de fato se aperfeiçoar em muitos setores. Lá as coisas funcionam melhor. Há oportunidades reais para todos. Como regra, não é preciso ter medo de assalto no ônibus, não é preciso recear que nos levem o carro. Lá a justiça pune, a polícia prende, a escola ensina. Respeitam-se horários. O lixo é jogado no lixo. As obras que precisam ser feitas são feitas.
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Mas aí a moeda mostra que tem outro lado.
Se a abundância e a tranquilidade dominam, as relações humanas sofrem abalos. Eu não sei por que isso acontece.
Será que a organização da vida em geral acaba por adormecer sentimentos? Será que a padronização das ações empurra as emoções para o canto? Será que a eficiência diminui as chances que o coração teria de falar? Será que a espontaneidade tende a sumir quando a sociedade evolui? Será que eficiência enferruja os laços de afeto?
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A frente e o verso. A eficiência deles bota os sentimentos dentro de padrões de controle, corta os naipes da espontaneidade. A nossa bagunça valoriza o afeto, deixa voar a emoção…
Pergunta final: será que é possível crescer sem perder a ternura?

