Fui ver a exposição da obra de Iberê Camargo que o Sesc/ Lajeado está oferecendo até o dia 23 de agosto próximo. Ali, na sala de exposições, pensei que o impacto que se tem diante dos quadros poderia ser comparado com um soco.
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O gaúcho Iberê Camargo (1914-1994) foi pintor, gravurista e professor. É um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX. Estudou na Europa e passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro. Em 1982, voltou para Porto Alegre e fincou o pé na cidade para sempre. Principalmente, graças à Fundação Iberê Camargo.
A Fundação Iberê Camargo teve sua criação oficializada um ano após a morte de Iberê. Está localizada num prédio que é ele mesmo uma obra de arte. Foi construído especialmente para sediar a Fundação, a partir do projeto do renomado arquiteto português Álvaro Siza. Fica na Avenida Padre Cacique, diante do rio Guaíba, em Porto Alegre e recebe o público com uma qualidade a que estamos pouco acostumados no Brasil.
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Ficou dito acima que é muito forte a impressão diante dos quadros de Iberê Camargo. Isto tem vários motivos. Principalmente, o susto que provocam. É assim: a gente está acostumado à pintura que é parecida com a fotografia, a chamada arte clássica ou figurativa. Por isto mesmo, fica sem saber o que pensar diante de outra forma de arte. Iberê Camargo está distante da arte figurativa. Ele não é um pintor clássico, mas um pintor moderno. Ele não pinta coisas. Iberê pinta sensações. Ou, como ele mesmo disse certa vez: “Não pinto o que vejo, mas o que sinto.”
Os quadros de Iberê Camargo representam a forma que as emoções teriam, se ganhassem uma forma. Imaginemos que alguém nos peça para desenhar o medo ou a raiva, por exemplo. Neste caso, o que é que a gente colocaria no papel?
Pois é. Aí se compreende o desafio de um artista moderno e, igualmente, o desafio de um apreciador desta arte. O apreciador de arte moderna se coloca diante de um quadro para simplesmente receber o impacto emocional resultante do traço ou da cor. Não é preciso entender nada, aliás, pode nem haver nada para entender. Cabe sentir. Ali não é o espaço da lógica ou da razão. É o espaço da emoção estética.
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O fato é que temos pouco traquejo com a arte moderna. Por isto mesmo não é de admirar que as pessoas saiam de uma exposição como esta de Iberê Camargo duvidando que isso seja arte. Acham que qualquer criança pintaria melhor…
Uma coisa, porém, é certa. A arte moderna abre portas para riquezas desconhecidas. O detalhe é que, para apreciá-la se faz necessário um aprendizado. Coisa parecida com o que necessitam aqueles que querem reconhecer um bom vinho, por exemplo.
Só é possível amar o que a gente conhece.

