As sete vidas de que fala o título desta coluna não tem a ver com o calçado antigo, aquele que era de pano colorido e foi precursor do tênis. Nada a ver, tampouco, com os gatos que, segundo a sabedoria do povo, tem sete vidas para gastar. As sete vidas aqui se referem a um livro sobre a vida de Nelson Motta.
* * *
Pode ser que você não saiba quem é Nelson Motta e nem precisa. O que interessa é o fato de Nelson Motta estar chegando aos setenta anos com todo o gás, depois de ter vivido suas sete vidas de forma independente e criativa.
Jornalista, compositor, produtor musical, dono de discotecas, comentarista de TV, roteirista e escritor, Nelson Motta tem sido uma figura de grande influência na cultura nacional. Ajudou a descobrir e a projetar talentos no mundo da música, como foi o caso de Tim Maia, de quem se tornaria também biógrafo no excelente: “Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia”.
* * *
O que me encanta mais em Nelson Motta é o fato de expressar seu pensamento, sem o objetivo de convencer alguém de qualquer coisa. “Com minha intuição, experiência e convicções, ofereço minhas opiniões com sinceridade… Se forem aceitas ou não, tanto faz” – declara.
Ele não se preocupa em ser como todo o mundo, quer ser apenas ele mesmo. E não tem medo de pensar nem de falar. Sabe que o pensamento não é culpado de nada. Pensar não é crime. Crime é cometer um crime.
* * *
Estou falando em Nelson Motta por dois motivos. Primeiro, por ter concluído a leitura “Sete vidas” com muito agrado; segundo, por que o seu caso ajuda a comentar os atentados terroristas na França, especialmente esse que atingiu a revista “Charlie Hebdo”.
Um dos grandes avanços da humanidade, junto com as descobertas científicas, é o reconhecimento do direito que cada pessoa tem de pensar e de se manifestar livremente. Na contramão desta visão, se situam aqueles que acreditam em alguma coisa e acham que todo o mundo tem de pensar igual – se não for por bem, que seja debaixo da mira da metralhadora. A palavra que descreve esta atitude é fanatismo.
Fanáticos se tornam perigosos porque puxam para si o dever de impedir que outras pessoas pensem ou falem de forma diferente e vão às últimas consequências.
* * *
Não gostar do humor da revista “Charlie”, nem das opiniões de quem quer que seja é um direito que nos cabe a todos. Também é direito nosso protestar em público. E ponto, o direito acaba ali. O que vem depois, seja depredação do patrimônio alheio ou matança de pessoas passa para um outro território. O território do crime. E deve ser tratado como tal.

