Zits é personagem de uma tira em quadrinhos, que começou a ser publicada no ano de 1997. Hoje em dia, a tira aparece em mais de mil jornais ao redor do mundo. Zits é o apelido de Jeremias, um garoto dos seus 15 ou 16 anos, que enfrenta os desafios da idade.
À primeira vista, Zits leva a vida na maior moleza. Vai à escola, tem um bando de amigos e uma família bem organizada. Zits não precisa batalhar para ganhar o pão e sua mãe lhe dá carona para tudo quanto é lado. No entanto, Zits sofre. Zits vive impaciente e aborrecido. A coisa mais fácil deste mundo é irritar Zits.
Tudo perfeitamente nos conformes, para o caso de um adolescente. E aí está a razão do sucesso dos quadrinhos. Acontece que crescer, tornar-se adulto, é uma empreitada bárbara. Ficar grande é muito assustador. É preciso abrir caminho e achar o lugar da gente nesta vida, no meio de pressões dos tipos mais variados. Notadamente, as pressões que vem da escola e as expectativas da família.
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Uma imagem de Zits que tenho em mãos mostra o garoto numa situação bem interessante. Zits está no seu quarto, estirado de bruços sobre um colchão que foi colocado no meio da peça. Ali tem de tudo. Uma guitarra, uma TV ligada, aparelho de som e fones de ouvido, computador, raquetes de tênis, estante com livros, escrivaninha, celular, lápis e cadernos, aparelhos para ginástica, bola de basquete, uma pizza recém começada, roupas jogadas, um boné, livros abertos, um copo com refri, batatas fritas e etc.
Zits está falando com um amigo pelo skype, dá pra ver a imagem do amigo na tela do computador. Enquanto fala, Zits tem nas mãos um iphone e joga um jogo eletrônico. O quê estariam conversando não se sabe, só temos uma frase. Zits se queixa amargamente. “Eu tô tri-ensacado” – e você?” O outro garoto, com a cara baixo astral, responde: “Mesma coisa.”
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Ou seja, ter muitas coisas é um salvo-conduto duvidoso. Quem aposta em coisas para alcançar felicidade pode dar com os burros na água. Há um espaço que as coisas não preenchem. A vida é um mistério. A morte é um mistério. E o fato é que temos medo do mistério. Fazemos truques para afugentar o medo: trabalhamos à exaustão; enchemos cada minuto com atividades; acumulamos coisas e preocupações. Ou nos refugiamos num estado de aborrecimento, como Zits faz.
O problema é que isso pouco adianta. Guimarães Rosa tinha razão ao declarar que “viver é muito perigoso”…

