O período mais tradicional das viagens de férias está chegando ao final. Sim, esta coluna vem meio fora de hora. Em todo o caso, o propósito aqui não é recomendar passeios ou roteiros muito especiais.
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Quase todo mundo gosta de viajar. O que varia são os interesses e os objetivos dos viajantes.
Hoje em dia, por exemplo, viajar virou quase sinônimo de abastecer o facebook com fotos. Mesmo quando fotografar estorva o prazer do momento, parece que a publicidade alcançada compensa o esforço. Claro que isto não chega a ser exatamente uma novidade. Desde sempre houve viajantes que tinham mais prazer em se prosear na volta do que em viajar propriamente. O fato poucas vezes lembrado é que viagens tem seus momentos de cansaço e de contrariedade. Nem tudo são flores. Maravilhosas, só mesmo as fotos e as poses, porque podem ser selecionadas de acordo com a conveniência de quem fotografa.
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Há pessoas que lamentam não poder viajar, por que lhes falta dinheiro.
O caso é que o viajante sincero viaja para satisfazer a curiosidade. E a curiosidade pode ser contemplada tanto numa viagem a Paris como na participação nos Passeios de Colônia, com o Alício Assunção, aqui mesmo no Vale do Taquari ou ainda numa visita ao zoológico, num piquenique, etc. Em todo o lado há muito para conhecer. “Quem tiver olhos para ver veja” – ensina a sabedoria mais antiga.
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Um dos meus modelos de viajante é Seth Kugel. Ele assinou durante anos uma coluna no jornal The New York Times intitulada Frugal Traveler que se pode traduzir como “Viajante simples”, sendo que a palavra “simples” tem o significado de econômico e sem badalação. Kugel também pode ser encontrado no YouTube, na série Amigo Gringo.
Seth Kugel costuma dizer que quanto mais se paga por uma viagem, menos se vê. Ele quer dizer com isto que em geral as viagens mais caras deixam as pessoas restritas a cenários especialmente montados para elas. Por isso mesmo, esses turistas só veem aquilo que foi programado. Nunca comem a mesma comida que a população local, quase só conversam entre si e perdem o lado mais autêntico do lugar visitado.
Numa das suas colunas Seth Kugel relata o desafio de passear por Hong Kong gastando um décimo do que os passeios mais chiques custavam e tendo experiências parecidas – só que muito menos artificiais.
Em outro relato, Seth conta sobre uma viagem que fez pelo interior da Turquia. Na ocasião, ele se embrenhou em estradinhas de chão e foi parar em vilarejos sem fama e sem charme. Em compensação, ali teve as melhores chances de conviver com pessoas da comunidade, sendo às vezes até convidado para entrar na casa delas, ver como viviam de fato. Ou seja, um prato cheio para quem tem curiosidade.
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Onde quer que você vá – disse Confúcio – vá com todo o seu coração.

