Andei envolvida com uma pequena reforma em casa. Reforma pequena, mas que barulho!
O que quero dizer é o seguinte: sendo preciso mexer em prateleiras e gavetas, tive de botar o bico onde há tempo não botava. Minha nossa! Descobri que guardava muito mais coisas do que poderia imaginar. Miudezas de variado porte, peças antigas, objetos que um dia achei bonitos ou que um dia foram úteis, caixinhas para reutilizar como embalagem, fitas e recortes, revistas, e papéis. Em resumo, coisas que em algum momento foram importantes ficaram pelos cantos até que eu passasse essa peneira agora. O resultado é que me assombrei.
Constatei que a maioria dos meus guardados tinham ficado tortos, desbotados. Mereciam ser chamadas de tralha mesmo. Era o caso de jogar fora sem dó nem piedade. Só eu mesmo não via isso, acostumada a deixar quietas as gavetas e a ignorar os cantos em que tinha preguiça de mexer.
Constatei também que já passava a hora de fazer um bom propósito, ou melhor, dois: primeiro, parar de acumular entulho em casa; segundo, sacudir as pulgas – como se dizia antigamente – com mais frequência.
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Enquanto andava de um lado para o outro na arrumação, enquanto via crescer a pilha de descarte, tive tempo de tecer umas filosofias, ou seja, tive tempo de alargar o alcance das ideias que a bagunça em casa fez brotar.
Cheguei a uma conclusão mais ou menos óbvia. Aquilo que acontece na nossa casa é parecido ao que se dá em outras esferas. De tempos em tempos a faxina se faz indispensável. É preciso abrir espaço, limpar os cantos, mudar, reorganizar.
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Sei que algumas universidades que mantêm dormitórios de estudantes adotam a política de fazer os residentes trocarem de apartamento a cada fim de ano. Assim, antes de sair em férias, os alunos têm de arrumar a trouxa e fazer mudança para outro quarto.
Mais do que qualquer justificativa pedagógica que o procedimento possa ter, a troca impõe uma faxina. Todos são levados a revirar os seus pertences e separar o útil do que é simplesmente bugiganga.
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Aqui entra, enfim, o caso das chefias e dos grupos que ficam muito tempo como donos do campinho – qualquer que seja o tipo de campinho. Dá para imaginar que muitos procedimentos desnecessários ou danosos vão se enraizando e vão ficando ali pelo simples fato de que ninguém se dá conta de que eles existem. Ou vão ficando, porque todo mundo está acostumado com as coisas tortas e não quer abrir a boca para não se incomodar.
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Acho que todos concordamos que uma mexida faz bem na nossa casa. Por que, não acreditar, então, que a agitação que sacode o cenário político nacional nos ajudará na tarefa de arrumar melhor a grande casa que todos partilhamos como cidadãos?

