Tive uma conversa inquietante com proprietário de empresa de terraplenagem. Nada a ver com escavação ou transporte de aterro. A questão era outra. Vê só: se a vida passa rápido do jeito que passa, o que seria de fazer para aproveitar bem a vida – este o ponto capital da conversa.
Faz tempo que o papo se deu e a dúvida continua latejando.
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Fora do papo informal, aproveitar bem a vida costuma ser associado com “qualidade de vida”. Existe uma fórmula para avaliar qualidade de vida. É o chamado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida comparativa usada para classificar países, regiões ou cidades. O resultado se obtém a partir de três principais fontes de dados: a expectativa de vida ao nascer; o acesso à educação e a renda per capita – esta, como indicador do padrão de vida, da capacidade de compra, do acesso a conforto.
Todos os anos os países membros da ONU são avaliados em termos de IDH. Na lista publicada em dezembro de 2015, por exemplo, a Noruega figura no topo da lista; a Austrália, em segundo lugar; os Estados Unidos, em oitavo; a Argentina, em quadragésimo e o Brasil em septuagésima-quinta posição. Níger, na África, fica detém a lanterna entre os países membros da ONU.
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Bom, uma coisa é a medição oficial, outra coisa é a percepção que cada um tem da sua vida.
Então, independentemente da ONU, vem para nós a pergunta: conseguimos sentir que vivemos com qualidade? Se temos boa saúde, acesso à educação e trabalho, já é mais de meio caminho andado. Mas e com relação à capacidade de compra? Quantas coisas é preciso comprar para se sentir realizado?
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O consumismo tão presente hoje em dia produz confusão. Sugere que aproveitar é igual a comprar, sejam bens de raiz, sejam bens de duração reduzida. Isto leva pessoas a se atirar no trabalho para depois se atirar no mercado.
Na outra ponta, entre adeptos do dolce far niente aproveitar é cair na gandaia, só fazer o que dá na vontade.
Como encontrar o equilíbrio, se até o equilíbrio tem tamanho variado? Equilíbrio é parecido com a roupa de usar: o que fica bem para um não tem garantia de servir para outro.
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Será que Graciliano Ramos tem razão quando diz que “tudo nesta vida é canoa furada”?

