Anos atrás realizei um estágio de pesquisa na Universidade do Texas em Austin. A experiência de morar nos Estados Unidos mudou minha vida, claro, e ensinou uma porção de coisas.
Não vou dizer que a vida lá seja perfeita, porque não é. Mas, certamente, tem características próprias, diferentes das nossas. O conjunto dessas características é o que se pode chamar de cultura. Cultura brasileira, cultura chinesa, cultura escandinava ou cultura americana, cada uma representa um modo de encarar a vida e isto é de fato um troço importante. Muda mesmo as coisas.
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Estou fazendo esta introdução para falar das eleições nos Estados Unidos. Enquanto escrevo não sei o resultado; enquanto você ler esta matéria, já estará sabendo.
Isto me faz lembrar da frase atribuída a Yogi Berra: “Fazer previsões é uma coisa difícil, especialmente se envolve o futuro”. Então, não me arrisco a profetizar nada. Prefiro comentar o que tenho ouvido de amigos americanos neste período pré-eleitoral.
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Meus amigos americanos dizem que as eleições presidenciais não são nem de longe tão importantes como os meios de comunicação fazem parecer. Dizem que o resultado das eleições não decide tanto a vida das pessoas como também os políticos gostam de fazer acreditar.
Meus amigos se sentem tranquilos para afirmar que a economia não fica observando os acontecimentos em Washington para decidir como os negócios serão organizados. Eles consideram que as empresas têm objetivos e estratégias próprias as quais obedecem a um planejamento interno de longo prazo, que não muda cada vez que o time dos governantes troca. As empresas acham que não podem ficar na dependência dos políticos. Precisam ter firmeza sobre os objetivos escolhidos, os riscos que correm e as decisões que tomam.
A mesma coisa vale para as comunidades – segundo os meus amigos. As comunidades se estruturam em torno de valores, projetos, métodos e seguem de forma mais ou menos indiferente ao que acontece no governo.
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Faz parte da cultura americana acreditar na autodeterminação, ou seja, acreditar que cada pessoa, cada comunidade, cada estado tem de tomar nas próprias mãos o seu destino e decidir o que parece melhor para si. É por pensar assim que muitos não gostam, por exemplo, do chamado Obamacare – um programa de saúde universal e compulsório, parecido com o nosso SUS, que o atual governo implantou.
Eles acham que o governo, se puder, tem de favorecer a geração de empregos. Estão convencidos de que, tendo emprego e salário decente, cada um escolhe como vai cuidar do seu plano de saúde, previdência e da própria vida, como um todo.
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Olhando deste ponto de vista, parece mais fácil de compreender (mesmo se for o caso de não concordar) por que muitos americanos acham que a eleição é bem menos importante do que parece.

