Próximo à virada do ano fui assistir a um filme polonês com tema inspirador. Trata-se de “Estados Unidos pelo amor”, que recebeu prêmio no Festival de Cinema de Berlin em 2016.
O filme mostra o embate do velho com o novo, da tradição com a renovação, por isso parece combinar com este período do ano, em que nos sentimos animados pela esperança de expandir as fronteiras do presente e de poder ingressar num estágio novo.
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“Estados Unidos pelo amor” situa a história no início da década de 1990 em uma cidadezinha não identificada da Polônia. Como se sabe, em novembro de 1989 ocorreu a queda do muro de Berlin e isso desencadeou uma onda de mudanças em todos os países de orientação comunista, a Polônia inclusive.
A ação principal se concentra no cenário de um conjunto habitacional de apartamentos sem charme e sem alma. Ali vivem as quatro personagens. São quatro mulheres: Agata, funcionária de uma vídeo locadora; Marzena, professora de dança e ginástica; Iza, irmã mais velha de Marzena, que é diretora da escola local e Renata, professora de meia-idade, na escola dirigida por Iza, que acaba de ser forçada a se aposentar. Cada personagem ganha espaço próprio no filme, sem haver grande ligação entre elas.
O que fica visível desde logo é o contraste entre o cenário antigo que elas habitam e a aspiração por uma vida que contemple melhor as aspirações de cada uma. A realidade é muito estreita e as mulheres se sentem desconfortáveis. As paredes grossas do cotidiano sufocam qualquer expansão. Não obstante as limitações, os desejos continuam pulsando.
O filme não encaminha solução alguma. Tanto que, quando as luzes da sala do cinema se acendem, a gente até se surpreende. Não estava esperando ver um The End na tela. Mas o fato é que a utopia fica ali, balançando na nossa frente, como uma hipótese não descartável. A utopia não é ridicularizada nem destruída pela enfermidade do real. Ou seja, fica posto que as aspirações existem e tem valor. Elas valem, mesmo se ainda não encontraram um jeito de ganhar concretude.
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Acho que é um pouco isto o que se espera do ano que começa. Que se respeitem nossas expectativas de ingressar em territórios novos. Que encontremos liberdade para criar maneiras de sermos mais perfeitamente aquilo que queremos e podemos ser.

