Encontrei uma amiga na rua. Fazia tempo que a gente não conversava. No papo, ela fez questão de contar sobre os livros que vem lendo nos últimos tempos. Comentou que, para ela, ler é quase que um vício. Na despedida, lembrou que gostaria de ter dicas. Anda sempre à procura de livros bons para ler.
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Fiquei pensando.
As pessoas que gostam de ler têm algumas vantagens. A vida nunca fica monótona. É sempre possível pegar a carona numa aventura e sair navegando nas páginas de um livro especial. Como alguém se sentiria solitário com tanta personagem legal para fazer companhia?
Não há chance de esgotar o interesse. Seja qual seja a crise que o Brasil atravessa, anualmente se publicam entre 50 e 60 mil títulos. Material decididamente não falta.
Se não dá para comprar, não faz mal. A biblioteca pública está de portas abertas.
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Para saldar o compromisso com minha amiga, recomendo a autobiografia de Rita Lee. O livro foi lançado no ano passado. Está sendo vendido por cerca de R$ 30, talvez um pouco menos. É uma obra super bem escrita, divertida. Um livro sincero.
Diferentemente do que fazem alguns famosos, Rita Lee pega para si a tarefa de contar a própria vida e o faz do alto dos seus 68 anos.
Em 296 páginas, a rainha do rock brasileiro se apresenta de forma despretensiosa, com muito humor. Às vezes, a gente interrompe a leitura para rir alto. Reconstitui sua história desde a infância. Fala sobre a casa paterna, o pai e a mãe, a família estendida. Conta sobre férias antigas, sobre a vida escolar, o início no mundo musical.
O livro não tem como objetivo o autoelogio. Rita Lee não enaltece seus méritos, não se “proseia” – em outras palavras – embora tivesse todas as razões para isso. Fala com honestidade sobre a própria contribuição para o cenário cultural brasileiro, recorda grandes sucessos, parcerias em shows, apresentações memoráveis. E focaliza também os fracassos, os desentendimentos, as dificuldades. Em particular, os sucessivos envolvimentos com drogas.
Com a saúde mais frágil, Rita Lee arremata a obra falando da sua fase atual, de retiro, com mais serenidade e contentamento.
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Difícil não gostar deste livro. Bom que ele também encoraja a voltar a ouvir as composições de Rita Lee: canções que vem nos acompanhando ao longo das últimas décadas.
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De Rita Lee, sobre o medo:
“O medo de sofrer é pior do que o sofrimento em si. Todos vão me machucar, só me resta escolher quem merece a minha dor.”

